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22.1.05


2004 em 50 singles

50. "Pardon My Freedom" - !!! (Touch And Go)
49. "Pleasure From The Bass" (12") - Tiga (Pias)
48. "Professional Distortion" - Miss Kittin' (Astralwerks)
47. "Out-Side" - Beta Band (Astralwerks)
46. "Birthday" - Junior Boys (Domino)
45. "Girl Is On My Mind" - Black Keys (Fat Possum)
44. "LSF" - Kasabian (BMG)
43. "Graphit" (12") - 2 Dollar Egg (Klang Elektronik)
42. "Strasbourg" - The Rakes (City Rockers)
41. "NY Excuse" - Soulwax (Pias)

40. "Yeah !" - Usher feat. Lil John and Ludacris (Arista)
39. "Bittersweet Bundle Of Misery" - Graham Coxon (Transcopic)
38. "Nearer Than Heaven" - Delays (Rough Trade)
37. "Romantic Rights" - Death From Above 1979 (Vice)
36. "Get By" - Talib Kweli (Rawkus)
35. "Mr. Brightside" - The Killers (Island)
34. "Watching Cars Go By" - Felix Da Housecat (Rykodisc)
33. "Wot Do U Call It ?" - Wiley (XL)
32. "Wanderlust" - Delays (Rough Trade)
31. "Toxic" - Britney Spears (Jive)

30. "Kick Out The Chairs" - Munk feat. LCD Sounsystem (Gomma)
29. "Heartbeat" - Annie (679)
28. "Drop The Pressure" (Erol Alkan Mix) (12") - Mylo (Breast Fed)
27. "Through The Wire" - Kanye West (Rocafella)
26. "Ch-Ch-Check It out" - Beastie Boys (Capitol)
25. "10am Automatic" - Black Keys (Fat Possum)
24. "Daktari" (12") - Alter Ego (Klang Elektronik)
23. "Hear My Name" (12") - Armand Van Helden (Tommy Boy)
22. "Drop It Like It's hot" - Snoop Dogg feat. Pharrell (Geffen)
21. "Party Crashers" - Radio 4 (Astralwerks)

20. "Satisfaction" - Benny Benassi (ZYX)
19. "Meantime" - Futureheads (Sire)
18. "America's Most Blunted" - Madvillain (Stones Throw)
17. "Neighborhood #1" - Arcade Fire (Merge)
16. "Jesus Walks" - Kanye West (Rocafella)
15. "Stand up Tall" - Dizzee Rascal (XL)
14. "Processed beats" - Kasabian (BMG)
13. "Galang" - MIA/Diplo (XL)
12. "Banquet" - Bloc Party (Dim Mak)
11. "99 Problems" - Jay-Z (Def Jam)

10. "Rocker" (Erol Alkan Extended Mix) (12") - Alter Ego (Klang Elektronik)
9. "Dry Your eyes" - The Streets (679)
8. "Chewing Gum" - Annie (679)
7. "The Rat" - The Walkmen (Record Collection)
6. "The Show" - Girls Aloud (Universal)
5. "Milkshake" - Kelis (Arista)
4. "Freakin' Out" - Graham Coxon (Transcopic)
3. "Yeah" (12") - LCD Soundsystem (DFA)
2. "Take Me Out" - Franz Ferdinand (Domino)
1. "Theme From Sparta FC #2" - The Fall (Action Records)

:: Leandro :: 4:14 da tarde ::



17.1.05


2004 e o Cinema

Boa parte dos filmes exibidos em 2004 pareceram trazer de volta o poder icônico à imagem. Das animações oníricas e expressionismo dos personagens de "As Bicicletas de Belleville" (que praticamente eliminam a necessidade de diálogos no filme) aos longos planos-sequência e passeios da câmera pelos corredores do colégio lado a lado com os alunos em "Elefante" (colocando o espectador numa tocante e muitas vezes incômoda relação de proximidade com a situação retratada); dos vôos do Homem-Aranha por entre os prédios de Nova Iorque (que fazem da interação entre personagem e cenário um dos principais elementos do filme) até o quase tele-teatro encenado em "Dogville" (onde a falta de cenário propriamente dito joga em nossa cara a inverossimilhança da trama, fazendo dela apenas o fio condutor para uma série de resoluções), a imagem e o som foram usados não só como veículos de ilustração de um roteiro, mas como parte vital da narrativa. A (bela) fotografia de "Diários de Motocicleta" é outro exemplo dessa retórica : a mudança na paisagem não só motiva a transformação no caráter de Che Guevara como também a ilustra.
O triunfo dessa adesão a imagem (e som), já ensaiada nos últimos anos, marcou a produção cinematográfica de 2004 - e se considerarmos que o maior expoente dessa "corrente" seja "2001 : Uma Odisséia no espaço", podemos no mínimo concluir que foi um ano interessante para o cinema - ou, numa previsão mais otimista, que uma grande fase está por vir.
Sem mais especulações, passemos aos prediletos da casa :



10. Diários de Motocicleta
Walter Salles consegue fazer de parte da biografia de Che Guevara uma história leve, mas nunca rasa. Recheado por divertidos diálogos e tiradas inteligentes, o filme acerta em não enveredar por um enredo panfletário ou piegas - o que seria, de certa forma, esperado. Ao invés disso, o diretor ilustra a história de um dos maiores ícones da história recente com uma reflexão sobre a busca de seu verdadeiro "eu", uma jornada existencialista regada por belíssimas imagens.



9. Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças
O roteiro de Charlie Kaufman (mais uma vez, rondando a idéia da mudança, do "tornar-se outro por uma vida melhor"), sem dúvidas a veia condutora do filme, viu na direção de Michel Gondry a parceria ideal : aqui, o diretor consegue não só materializar as idéias do roteirista como também potencializá-las. Um trabalho muito bem realizado, que conta ainda com excelentes atuações de Jim Carrey e Kate Winslet.



8. Escola de Rock
Sim, o roteiro de "Escola de Rock" é um dos mais manjados da história do cinema, mas graças a atuação ensandecida de Jack Black, o filme ganha status de uma das melhores comédias dos últimos tempos. O grande trunfo do filme, porém, fica com a direção de Richard Linklater, que consegue captar o sentimento de euforia que acompanha a descoberta do Rock (ou, vá lá, da música Pop) e passar para o espectador, que parece sair do cinema com a mesma idade dos alunos de Black.



7. As Bicicletas de Belleville
Num tempo onde a computação gráfica cada vez mais ganha espaço nos filmes de animação, a aparição de um filme totalmente dedicado aos traços e cores dos desenhos no "circuitão" já seria digno de uma menção. Junte à estética "ultrapassada" uma inclinação pelo cinema mudo (o filme não apresenta praticamente nenhum diálogo), e temos... um dos mais arrojados trabalhos do gênero nos últimos anos : visuais espetaculares e trilha e efeitos sonoros precisos juntam-se a uma narrativa totalmente peculiar, cheia de humor negro, causando um estranhamento que logo transforma-se em admiração. Um filme literalmente inesquecível.



6. Adeus, Lênin !
Assumindo uma postura cômica, Wolfgang Becker conseguiu pintar um quadro diferenciado da unificação da Alemanha : a queda do muro, vendida como uma grande vitória para todo o mundo, representaria a desgraça para a mãe de Alex (Daniel Brühl), uma caricatura não só dos simpatizantes da segregação das Alemanhas como dos saudosistas exagerados (independente da nacionalidade). Em meio a ótimas piadas, podemos encontrar ainda uma idéia de inconformismo, de insatisfação com o presente, desejo de reconstruir a história - e isso vai muito além de barreiras geográficas. É essa sensibilidade que fez do filme um sucesso, não só em seu país de origem.



5. Dogville
Provocador por natureza, Lars Von Trier fez de "Dogville" provavelmente seu trabalho mais controverso. Utilizando um cenário precário, Von Trier tenta criar uma redoma entre espectador e personagens, fazendo atrás de todo sofrimento de Grace (Nicole Kidman, em sua melhor atuação) uma crítica a sociedade americana - ou, numa interpretação mais profunda, a sordidez do ser humano. Mesmo assim (e provavelmente aqui entra a cutucada do diretor), o martírio de Kidman é praticamente impossível de passar indiferente a nossos olhos, e o filme acaba mexendo com outros sentimentos, seja complacência, angústia ou prazer sádico. Dessa forma, o trabalho acaba assumindo mais uma faceta : a de análise da natureza humana.



4. Homem-Aranha 2
Homem-Aranha 2 é a melhor adaptação de quadrinhos para o cinema já feita. Mesmo com os tradicionais clichés de filmes de herói devidamente inseridos, Sam Raimi consegue extrair o suco das histórias de Stan Lee, seja nos visuais estonteantes (mais caprichados do que os de seu antecessor), que ajudam a amarrar os laços (teias) do Aranha com a cidade de NY, ou com o aprofundamento psicológico dos personagens - não numa tentativa de tornar o empreendimento mais "artístico", mas numa clara aproximação com a história original: cheio de tiradas cômicas e momentos dramáticos, o filme é mais uma viagem a nossos dias de adolescência, carregado de dilemas existenciais e a constante sensação de mudança e descoberta que o período implica.



3. Encontros e Desencontros
O segundo filme de Sofia Coppola sugere, através de longos planos e quase nenhum diálogo, a materialização de sentimentos, seja a melancolia e deslocamento de seus personagens (na primeira parte), ou a euforia contida que acompanha as incursões de Bill Murray (em seu melhor papel) e Scarlett Johansson pela cidade de Tóquio, que de modorrenta passa a convidativa e extravagante assim que os dois se conhecem. A (re)descoberta do amor, mesmo que de uma forma lúdica (ou até por isso), faz com que cada cena, cada gesto ensaiado, cada nota musical transborde emoções. "Encontros e Desencontros" consegue extrair beleza da simplicidade, até mesmo da imperfeição. Poucos filmes conseguiram ser tão humanos em sua essência.



2. Elefante
Narrativa fragmentada, interação da câmera (e consequentemente, do espectador) com os personagens e cenários, alunos representando seu próprio cotidiano : com esses ingredientes, Gus Van Sant deu seu toque de cineasta a uma história cujo final todos nós infelizmente conhecemos. O que faz de "Elefante" um marco no cinema, porém, é o tato que o diretor teve para tocar no assunto, partindo do centro de todo o evento, o universo dos jovens, sem desrespeitá-lo - e mais importante, sem tomar partido ou induzir a alguma conclusão definitiva. O resultado é um filme de uma beleza inquietante, que abre inúmeras interpretações (ou seriam "verdades" ?) para o comportamento de cada um de seus personagens. Um divisor de águas, muitos diriam.



1. Kill Bill (vols. 1 e 2)
Se Quentin Tarantino é o maior catalisador da cultura Pop no cinema atual, "Kill Bill" é sua obra de maior alcance nesse aspecto, uma amálgama da cultura mundial não vista desde que Beck gravou seu "Odelay", em meados da década de 90. A antena parabólica de Tarantino consegue decodificar a história do cinema, da música, fotografia, artes plásticas, marciais... e reprocessá-la de uma forma característica - no caso, a de um nerd aficcionado por cinema que quer dividir com o público sua paixão. É esse amor, aliado a um já tradicional senso de humor e uma dose de auto-crítica acerca de sua não-erudição, que evita que o filme seja um amontoado de referências ou um simples exercício estilístico : "Kill Bill" é cinema de primeira, capaz de agradar desde os cinéfilos mais cri-cris até o espectador ocasional. A esse tipo de obra, rica e acessível, já deram até um nome : Pop Art. Genial.

:: Leandro :: 1:57 da manhã ::



11.1.05


2004 : Leitura Dinâmica

Segundo um dito popular, os anos bissextos refletem períodos de dificuldade. Folclore ou não, o fato é que 2004 deixou marcas um tanto desagradáveis, entre elas a insistência numa guerra desnecessária (não que alguma não o seja), o declínio da economia mundial, a crescente crise diplomática internacional, a tirania garantindo mais quatro anos de trono. Pra provar que foi do mal, 2004 reservou para o apagar de suas luzes uma cartada derradeira : quando as retrospectivas já preparavam suas pautas e tudo parecia encerrado, uma catástrofe de proporções inimagináveis deixou um sem número de mortos e acabou ofuscando todas as desgraças ocorridas nos últimos meses. Oxalá que 2005 reserve momentos melhores - toc, toc, toc, bate na madeira três vezes.
A música, por sua vez, sempre brilhou nos momentos de dificuldade, seja por representar uma válvula de escape ou por incorporar, enquanto forma de arte mais acessível, o descontentamento e o anseio por mudanças de uma geração. Nesse aspecto, 2004 também seguiu a escrita : os últimos doze meses foram de suma importância para a história da música recente. Pode-se dizer, sem nenhum otimismo exagerado, que os caminhos (em todos os aspectos) que a música tomará nos próximos anos foram finalmente delineados.
Um bom período para a música começa, claro, com fartura e qualidade nos lançamentos : a produção musical de 2004, além de ter sido a mais intensa da década até então, prezou pelo compromisso com o novo e, mais importante, com a diversidade. Do Rock a Eletrônica, da World Music ao Jazz, grande parte das bandas e artistas viu seu trabalho conquistar terrenos até então inexplorados. Em outras palavras, a classificação em estilos e a idéia de "público alvo" dissolvem-se cada vez mais, dando espaço a uma grande e abrangente massa. Usando um mote do querido XTC, "This Is Pop".
O crescente interesse do público seria, então, causa e consequência desse padrão de qualidade (e quantidade) - e o estímulo a essa relação de reciprocidade veio principalmente dos downloads de mp3. A fartura na distribuição de músicas e a velocidade cada vez maior das conexões deixam o ouvinte a um clique da obra de qualquer artista - e no caso de reprovação, deixam a obra a um clique da lixeira. Essa banalização da informação (gostou, salva, não gostou, joga fora), porém, acaba com a incômoda inclinação a gostar de um disco (que, admita, normalmente acontece quando algum dinheiro é investido), formando assim uma geração mais exigente e, porque não, aberta ao novo - afinal, tudo (novidades, gêneros) está ao alcance de um clique. E o melhor, gratuito.
A indústria fonográfica, por outro lado, via nos downloads gratuitos sua sentença de morte, usando a troca de mp3 pela rede como justificativa para a constante queda nas vendas nos últimos anos - situação semelhante àquela ocorrida no início da década de 80, com a popularização da fita cassete. Ora, se a cópia gratuita de música não provocou a falência da indústria naquela época, não seria hoje que isto ocorreria : a queda nas vendas nada mais é do que o reflexo de uma economia global prejudicada, além, claro, da dificuldade de adaptação das gravadoras à nova realidade. E foi em 2004 que, por meio de dois principais acontecimentos, tivemos o mais importante passo da música nos últimos anos : o início da desmarginalização dos downloads de mp3. O primeiro deles foi o lançamento e consequente popularização do iPod. O aparelhinho da Apple, sucesso absoluto nos EUA e Europa, foi a prova de que muita gente está sim disposta a pagar pela música que baixa na net, independente dos programas gratuitos. Mais ainda, o sucesso do formato pode ser prognóstico para uma breve explosão no mercado, assim como ocorreu na mudança dos discos de 78 rotações para os LP's de 45, dos LP's aos cassetes, dos cassetes aos Cds. 2005 promete.
O segundo acontecimento vital para esse processo foi o anúncio da BPI (British Phonographic Industry) de que 2004 foi o ano de maior vendagem de discos na história da Inglaterra. Nunca se consumiu tanta música na ilha como hoje, mas uma rápida olhada nas paradas é suficiente para notarmos que os números dos mais vendidos é mais baixo do que os do ano passado. Essa regurgitação no mercado, com as outrora unanimidades apresentando uma queda e artistas independentes em plena ascensão, é resultado direto das milhares de possibilidades que a internet oferece - e como os números mostram, no final todos saem ganhando. Coube ao mercado Britânico, notadamente o mais avançado do planeta, mostrar às gravadoras que o caminho das pedras é abocanhar os selos menores, de onde boa parte das novas promessas estão saindo. Claro, o pioneirismo do Reino Unido também deve-se ao tamanho do país, onde qualquer mudança é sentida mais rapidamente. Países maiores como os EUA devem reverter o placar assim que o mercado absorver as mudanças necessárias. Até mesmo a indústria fonográfica Brasileira, que apresenta sérios problemas estruturais, começa a dar sinais de renovação, com a estabilização de uma gravadora independente (Trama), e o crescimento de outras, como a brava Deck Discos (responsável por boa parte dos lançamentos nacionais de qualidade em 2004) e a popularização de formas alternativas de distribuição, como a revista Outra Coisa, editada por Lobão.
Outro sinal de avanço do mercado nacional é a intensificação de festivais, cada vez mais abrangentes e apresentando rotas alternativas ao eixo Rio-São Paulo. Dois exemplos claros são o MADA (em Natal) e o Curitiba Pop Festival, que esse ano trouxeram respectivamente The Walkmen, Teenage Fanclub e Pixies. Outras presenças marcantes em território nacional foram as de Primal Scream, Kraftwerk, PJ Harvey, Brian Wilson, 2 Many Dj's, Chemical Brothers, Liars, LCD Soundsystem, Kid Koala, Laurent Garnier, Fatboy Slim...Artistas que, mesmo não pertencendo ao mainstream, prezam pela qualidade.
Mais importante, mesmo sem o devido marketing essas bandas atraíram um público sempre satisfatório, o que abre um gancho para mais uma resolução sobre o ano : nunca o experimental e o popularesco estiveram tão próximos como em 2004. Enquanto artistas de obra mais, digamos, "obtusa" conseguem uma penetração cada vez maior graças a facilidade na distribuição, outros de apelo mais Pop caem nas graças de críticos e consumidores mais exigentes - ilustrando assim a democratização do mercado, motivada pelo tal "padrão de qualidade" citado anteriormente.
Apesar do balanço positivo, nem tudo foram flores para a música em 2004. O Soul perdeu uma de suas maiores vozes (Ray Charles), a Jamaica perdeu um de seus maiores produtores (Clement "Sir" Coxsone Dodd), o Rock, completando 50 anos, perdeu um de seus maiores baixistas (John Entwistle), os Ramones perderam o terceiro de seus quatro membros fundadores, a crítica perdeu um de seus maiores nomes (Dave Godin) e a música perdeu seu maior divulgador (John Peel). Cada um, à sua maneira, influenciou diretamente no curso que a música tomou nas últimas décadas. Fica aqui registrada a homenagem a estes e todos os outros que partiram no último ano.
Pra não terminar em tom fúnebre, fecho o texto usando um ditado tão popular quanto o da primeira linha : "o show não pode parar". E assim, 2004 foi iluminado pelo brilho de nomes como... Melhor não dar nome aos bois pra não estragar a surpresa. Que venham as listas.

:: Leandro :: 12:55 da manhã ::



5.1.05


Ressaca ? Abacaxi resolve ! (terceira edição)

Pra livrar o ano que começa de más vibrações, nada melhor do que abrir os trabalhos exorcizando o que de pior aconteceu em 2004. Pela terceira vez, o Pop-Scene "premia" o que de pior e mais "esquecível" aconteceu nos últimos doze meses. Eis os vencedores :

.Pior música : "Comfortably Numb" - Scissor Sisters
Transformar uma música do Pink Floyd numa bagaceira Disco já era suficiente para uma menção, mas a coisa não parou por aí : durante quase todo ano, a versão sub-Bee Gees nos perseguiu em rádios FM e pistas de dança mundo afora. "Pesadelo na Discoteca".

.Pior show : "Cansei de ser Sexy"
Gente feia, histérica e sem talento + barulhos gratuitos + visual pretensamente descolê : com essa fórmula, o Cansei de Ser Sexy abocanhou o título antecipadamente. E ainda tomaram tempo do set dos 2 many Dj's. (menção horrorosa para : Skank e Replicantes no Video Music da MTV - afinal, necessita-se de muita prática para conseguir errar uma música dos Ramones...)

.Pior banda : Charlie Brown Jr
O Clovis Bornay da competição. Enquanto Chorão e sua trupe estiverem em atividade, o prêmio dificilmente ficará em outras mãos. Pra comemorar o bicampeonato, fica aqui a justificativa do ano passado : "Tudo bem que os caras tocam "direitinho", mas aturar letras onomatopéicas e um vocalista pré-balzaquiano posando de garotinho-rebelde-skatista de 15 anos de idade, proclamando a banda como "voz da juventude" ou "símbolo do rock" não dá. To the lions !" (PS - além do indiscutível título, nosso querido vocalista esse ano conquistou uma categoria especial - o "Troféu Adilson Maguila")

.Pior disco : "Fly or Die" - N.E.R.D
Junte um amontoado de clichés sonoros a meia dúzia de palavrões e gírias gangsta e, voilà, eis o disco dos "maiores produtores da atualidade" (sic) - ou "o que esperar de um disco de Rap com participação dos membros do Good Charlotte ?". (menção horrorosa para a bomba atômica do U2 e... o Charlie Brown Jr lançou disco esse ano ?)

.Fiasco do ano : Interpol - "Antics"
Após uma brilhante estréia, a banda Nova-Iorquina transformou seu som em formuleta e caiu no lugar-comum. Na primeira audição, "Antics" já soa desgastado, como aquele disco ouvido exaustivamente que acabou perdendo a essência. Se continuar por esse caminho, o Interpol será sério candidato ao posto de "novo Placebo". Entenda isso como quiser.

."Revelação" : Keane
Tudo o que é doce, por mais que seja bom, enjoa rápido. O nível de açúcar deste genérico de Colplay, porém, é tão alto que uma simples dose pode causar diabetes. O ministério da saúde adverte.

.Pior Filme : A Paixão de Cristo
Pelo amor de Deus...

.Hype execrável : culto ao lixo da década de 80
Festas embaladas por "Balão Mágico" e "Trem da Alegria" ? Roupas de caráter duvidoso ? A única parte boa da história é que, assim como toda moda, essa palhaçada vai ficar "over" (sic).

.Fato bizarro : assassinato de Dimebag Darrell
O guitarrista do Pantera, morto em cima do palco por um fã inconsolado, pode vir a se tornar um mártir para uma revolução, uma espécie de "The Wall" atualizada - onde músicos apresentariam-se sob a proteção de uma tela à prova de balas, ou atiradores de elite posicionariam-se em vários pontos estratégicos, ou ... (complete a frase com mais alguma solução mirabolante - afinal, estamos falando da terra da paranóia e psicose coletiva). Creepy.

."Personalidade" do ano : Zeca Pagodinho
Protagonista da maior picaretagem (pública) do ano, o pagodeiro personificou a eterna "Lei de Gérson" - e depois de uma justificativa totalmente deslavada, ainda ganhou a simpatia do público. "Sou brasileiro, e não desisto de me dar bem às custas dos outros nunca", ou "o pior do Brasil é o brasileiro".

Abacaxi neles !

:: Leandro :: 1:10 da manhã ::



31.12.04


Retrospectiva 2004

Depois do término da (atrasada) série "Tim Festival", o Pop-Scene começa 2005 caindo de boca em tudo o que de mais bacana aconteceu no ano que passou - incluindo, claro, a famigerada lista de melhores discos.

Boas festas e feliz ano novo. Que 2005 reserve bons momentos a todos nós.

:: Leandro :: 12:52 da manhã ::



28.12.04


Tim Festival - Parte 3

Os primeiros instantes da manhã de domingo traziam as consequências do napalm despejado na noite anterior : desertas, as ruas de São Paulo pareciam calar-se diante uma garoa fúnebre, que pela primeira vez na semana resolvia aparecer, fazendo jus ao apelido da cidade. Um clima sem dúvidas apocalíptico, mas que ao mesmo tempo aguçava o olfato daqueles que presenciaram o bombardeio - estes, assim como Coronel Kilgore, acordaram sentindo o "cheiro da vitória". O grande problema era que o "day after" marcaria a apresentação de ninguém menos que Brian Wilson - que pelo menos até o sábado, figurava como o maior nome (e consequentemente, a promessa de melhor show) do festival. Não que Brian estivesse se importando com isso - na verdade, o peso não estava nas costas do ex-Beach Boy, e sim na cabeça deste pobre mortal que iria assistí-lo. Afinal de contas, como presenciar um fato de tamanha importãncia no estado de ressaca emocional que ainda me encontrava ? Como fazer parte de uma página da História sem alguns pedaços do cérebro, ainda espalhados pela pista do Main Stage ?
A lamentável disposição dos ingressos em mesas e cadeiras, principal mudança em relação aos dias anteriores de show (que além do abusivo encarecimento do preço, reduziu a quase um terço sua capacidade de lotação), acabou tendo como único ponto positivo a falta de filas, permitindo que todos se acomodassem a poucos instantes do início, sem maiores problemas. A outra mudança estava na ausência de um show de abertura : segundo a produção do festival, Wilson faria uma apresentação de quase três horas de duração, executando o recém-lançado álbum "Smile" na íntegra, além de clássicos de sua ex-banda. O roteiro anunciado, porém, parece não ter chegado aos ouvidos de Brian, e ao término de uma apresentação de pouco mais de uma hora e meia (com apenas três músicas do disco em questão tocadas), a sensação de ter comprado gato por lebre consumia, como um tumor, a emoção experimentada em vários momentos do show.
Escondido atrás de um teclado (raramente tocado), Brian colocou o público no bolso assim que abriu os trabalhos : "Sloop John B", mesmo cantada alguns tons abaixo, arrancou lágrimas da mais rígida pedra. A partir dali, uma rápida olhada ao redor era suficiente para constatar um público (o mais diversificado do festival) totalmente encantado com aquele senhor cantando antigos sucessos - um breve resumo do que aconteceria pela próxima meia hora. Após quase cinquenta minutos de "espera", eis que os suspiros de "Our Prayer" marcam o que seria o início de um momento realmente mágico - seria, se não tivéssemos um salto da segunda para a décima-sétima faixa do disco. E assim, de "Heroes And Villains" a "Good Vibrations", "Smile" tornou-se um coadjuvante no show - levando consigo a banda de dez músicos, que de colaboradores efetivos na gravação do trabalho, passaram a banda de baile. Nem mesmo a obra prima de sua ex-banda foi devidamente representada : "Pet Sounds" só compareceu com quatro faixas (com a mais do que aguardada "God Only Knows" marcando o melhor momento do show), sendo uma delas a instrumental faixa título (nem "Caroline, No" !).
O público, claro, não se queixou, cantando e dançando com os velhos hits e se impressionando com o vigor de Wilson, que voltou ao palco correndo e levantou-se para tocar um inaudível baixo em "Surfin' USA" e "Fun, Fun, Fun". Os longos aplausos ao término até trouxeram uma idéia de dever cumprido, mas o fato é que o show careceu do arrojo que transborda no disco (teoricamente) promovido.
A saída do palco principal foi basicamente sincronizada com a abertura do palco Lab, e uma breve passagem por sua porta trouxe à vista a grande densidade de cabelos cuidadosamente ensebados por metro quadrado : os Libertines, que subiriam ao palco depois da apresentação dos curitibanos do Grenade (que tocou para uma platéia mínima), tinham o público mais jovem e "descolê" do festival. O anúncio do fim do show de abertura provocou um rápido êxodo da garotada, esvaziando as dependências do Village. Ainda no clima de despedida do local, resolvi ficar mais um pouco e pegar a "rebarba" do show, mas duas músicas foram suficientes para o veredicto, confirmado após assistir pela tv seus últimos instantes : show fraco. Melhor voltar para casa e descansar para o dia seguinte, quando já no Rio, assistiria mais um show do Primal Scream (junto aos Libertines).

E no Rio...



A chegada no Armazém 5, onde os shows seriam realizados, trouxe a maior decepção de todo o final de semana : faltava pouco mais de uma hora para o início (marcado para as 21:30), e o público presente podia literalmente ser contado nos dedos. O grande galpão do cais do porto parecia assombrado pela total ausência de público, que acabou aparecendo, ainda em quantidade constrangedora, de última hora. O embaraço maior, porém, veio com a visão do palco : a parede de amplificadores, o baixo de Mani, a guitarra de Kevin Shields. O Primal Scream seria a primeira banda da noite. A segunda-feira fria e chuvosa, o alto preço dos ingressos e até o fato de boa parte dos fãs ter ido a São Paulo podiam até ser usados como justificativas para o público, mas a falta de bom-senso e até de consideração da organização era imperdoável. É por essas e outras que o Rio fica cada vez mais longe do circuito das bandas internacionais.
Reza a lenda que "a ordem dos fatores não altera o produto". Mesmo assim, o Pop-Scene mexe nos pauzinhos da história e corrige a trapalhada dos (des)organizadores : que os Libertines venham primeiro. E o show, como previsto, foi muito aquém dos discos da banda (que já não são lá grandes coisas, diga-se). Carl Barat, o mais esforçado, parecia perdido entre um guitarrista de aluguel e um baixista que, numa forçada pose "blasé", passou todo o show na mesma posição. Mesmo o salto do guitarrista sobre a platéia, já no final da apresentação, não foi suficiente para salvá-la da monotonia - agravada pela execução pálida da maioria das músicas. A primeira fila, porém, parecia indiferente ao incômodo embolo sonoro produzido no palco : colunistas indies e modernetes em geral chacoalhavam sem parar - dando impressão (pelo menos para quem estava nas filas traseiras) de estarem curtindo o que viam/ouviam por obrigação. O bom e velho hype fazendo suas vítimas. A sensação de amadorismo foi aumentada quando o baterista, antes do bis, derrubou parte do kit da bateria - e os roadies levaram uma eternidade para remontá-la. Como um amigo bem observou, "parecia show de sarau". Divertido mesmo foi acompanhar a "performance" do técnico de PA, muito mais animada do que a que ocorria em cima do palco.
Tocando para um público ainda menor que o dos Libertines (para total constrangimento dos poucos fãs presentes), o Primal Scream fez uma apresentação mais contida. A banda pouco se movimentou durante o show : Mani falou menos, Bobby Gillespie passou quase todo o tempo pendurado no pedestal de seu microfone e Andrew Innes comunicou-se mais com os roadies do que com a platéia. O problema no palco, que por sinal permaneceu até as últimas músicas do show, junto a acústica prejudicada do local, impediu uma sonorização tão cristalina, o setlist mais curto (afinal, aqui os caras foram reduzidos a banda de abertura) obrigou o corte de quatro músicas, a recepção fria do público impediu a criação do clima mágico de dois dias atrás - mesmo assim, a massa sonora criada (tão violenta quanto a de sua última apresentação) foi suficiente para deixar sequelas irreversíveis nas poucas testemunhas. Impressionante ver uma banda, mesmo em condições tão adversas, apresentar-se com a mesma competência. Uma lição para toda e qualquer banda de Rock; um sonho realizado por um fã. Que o Tim Festival mantenha o nível em sua próxima edição.

:: Leandro :: 1:08 da manhã ::



22.12.04


Depois da conquista do troféu Teia de Aranha 2004, o Pop-Scene volta ao trabalho às vésperas das famosas listas de final de ano. Mas antes disso, continuemos com nossos compromissos - mesmo que já descontextualizados...



Tim Festival - Parte 2

A prévia do dia que estava por vir, dada no final do set dos 2 Many Dj's, foi complementada com uma visão no mínimo curiosa : enquanto todos deixavam o village iluminados pelos primeiros raios solares, um garoto literalmente nadava contra a corrente e, trajando uma camiseta de PJ Harvey, preparava-se para adentrar as dependências do Jockey Clube. Mais de doze horas separariam o show daquele momento, que trouxe uma aura de frenesi normalmente vista nos festivais de porte maior. Definitivamente, o sábado reservaria emoções diferentes, a começar por suas atrações : enquanto Kraftwerk e 2 Many Dj's, principais nomes do dia anterior, já haviam se apresentado por aqui, o "compacto duplo" (PJ Harvey/Primal Scream) que dividiria as atenções no palco principal nunca pisara em solo Brasileiro.
A sensação de total "entrega" ao evento (uma alternativa para mencionar a já desgastada "expectativa") foi refletida em todos os momentos do dia, do café da manhã até um bizarro incidente com a polícia à tarde - que, de uma forma ou outra, só contribuíram com a ansiedade para a noite que cismava em não chegar. Coisa de fã - e naquela altura, inúmeros destes já deviam estar com a mente funcionando na mesma frequência do xiita que enfrentava um longo dia na frente das roletas. Agora, era rezar pra que outros não tivessem a mesma idéia.
Felizmente, duas saudáveis horas de antecedência foram suficientes para garantir um lugar ao sol (no caso, na grade) - mas, citando um livro escrito a alguns milênios, "é necessário passar por um purgatório para se chegar ao paraíso". E assim, o acesso ao main stage transformou-se num pequeno inferno, graças a um atraso na passagem de som que obrigou um cancelamento na entrada principal - deixando muita gente se espremendo por quase meia hora até o sinal verde. Passado o sufoco, uma constatação nada animadora : a provação estava apenas começando. Ainda viriam o enxame de menininhas histéricas (que gritavam insistentemente pelo nome de PJ antes de qualquer vestígio de show) e, a maior delas, o show dos Picassos Falsos.
Ok, não é de bom grado descer o malho em shows de bandas que ainda tentam trazer algo ao combalido mercado nacional, mas assim como o Felini tocando para o público dos White Stripes na edição passada, os Picassos Falsos eram a banda errada no lugar errado. Sua mistura de "Samba, Rock e Pop" (segundo os próprios) provocou uma indigestão na platéia, pouco interessada nas (fracas) releituras de clássicos da MPB como "Iansã", de Gil e Caetano, e "Morena de Angola", de Chico Buarque, ou nas incursões eletrônico-emepebísticas de seu último disco. Nem o pseudo-hit "Carne Crua" conseguiu arrancar aplausos, deixando no ar um clima incômodo - e a sensação de que o show já durava uma eternidade. O momento de constrangimento maior foi reservado para o final da apresentação, com uma canção intitulada "Super-Carioca" - o primeiro de dois momentos naquele final de semana nos quais senti vergonha de viver na cidade de São Sebastião. Os únicos aplausos calorosos que a banda recebeu vieram com sua despedida do palco. Alívio geral na platéia.



O anúncio da entrada da "musa alternativa" (sic) deu uma amostra da impressionante torcida que PJ Harvey tem no Brasil : sob estrondosos aplausos, a cantora subiu ao palco vestindo um "modelito outdoor" de "Uh Huh Her" - e abriu os trabalhos com uma de suas músicas ("The Letter"). Logo, a postura frágil e tímida foi desaparecendo e, com o perdão do trocadilho, a pequena Polly agigantou-se, conduzindo a performance com carisma e propriedade. A euforia do público, que cantava todas as músicas a plenos pulmões (provocando uma já esperada reação de surpresa), sem dúvida ajudou na fluência do show (e no rápido "processo evolutivo" de PJ), mas sua consistência deve-se principalmente à banda de apoio, que no formato de power trio totalmente atolado no Blues (lembrando os tempos de "Dry") trouxe peso aos arranjos, fazendo com que muitas canções (principalmente as do último disco) soassem ainda melhor ao vivo. O entrosamento dos músicos, que em alguns momentos revezavam-se nos instrumentos, deixou a cantora totalmente à vontade para soltar seu vozeirão - que graças a uma péssima equalização, mal foi ouvido nas quatro primeiras músicas. Entre as prejudicadas estavam dois de seus maiores sucessos (e prediletas da casa), "Meet Ze Monsta" e "Big Exit".
Na segunda parte do show, PJ concentrou-se em seu repertório mais antigo, indo das maravilhosas "Victory" e "Dress" (do disco de estréia, fazendo a alegria dos fãs de longa data) até a trinca Blueseira com "Me Jane", "50 ft Queenie" (ambas de "Rid Of Me") e o lado B "Harder" (um dos melhores momentos do show), passando ainda por hits como "Shame", "Good Fortune" e "Down By The Water" (onde, chacoalhando maracas, foi acompanhada pelo público no refrão final). Só faltou mesmo "Sheela Na Gig". E pra quem falava sobre uma suposta antipatia, PJ surpreendeu : "Nunca vi tantas caras felizes na minha vida", dizia. Nem precisava - bastou uma pequena dose de tímidos sorrisos para o mais turrão dos espectadores ser conquistado. No final, menininhas histéricas choravam, marmanjos babavam e todos chegavam a uma mesma conclusão : dificilmente o show seria superado.
O que ninguém poderia esperar era que a banda seguinte, incógnita para boa parte dos presentes, apresentaria uma performance tão esmagadora. Esqueça o show dos Rolling Stones no Maracanã, o Sonic Youth no Free Jazz e até mesmo a passagem de Neil Young no Rock In Rio : o Primal Scream produziu uma ensurdecedora massa sonora jamais vista em território nacional. "Catarse coletiva", "rolo compressor" e milhões de expressões batidas não seriam suficientes para descrever o que sucedeu naquele palco. Hoje, mais de um mês após a apresentação, os sentimentos despertados continuam totalmente vívidos e indescritíveis.



A troca de energia entre público e banda durante todo o show foi tamanha que despertou uma sensação só experimentada em estádios de futebol e cultos ecumênicos. Centro das atenções do evento, o "pastor" Bobby Gillespie subiu ao palco completamente alucinado, dando a impressão de que não teria forças para continuar. A crescente empolgação do público serviu como combustível para Gillespie e cia, que se inflamava e respondia com performances viscerais, criando uma relação de entrega que caracteriza os shows do tipo "inesquecíveis". Adaptando trejeitos de alguns dos maiores frontmans da música Pop, Bobby brincava com o pedestal de seu microfone, subia nas caixas de retorno, ajoelhava e cantava acompanhado de uma banda que, aproveitando o mote religioso, evocava os espíritos daquelas que extrapolavam o limite dos decibéis : Hendrix, Who, Stooges, Clash, Gang Of Four e vá lá, Jesus And Mary Chain e My Bloody Valentine, estavam todos ali, contribuindo com a criação de uma tensão sonora capaz de alimentar uma cidade. E o melhor de tudo, a esporreira era perfeitamente identificável : mesmo nos momentos em que as três (!) guitarras faziam uma mesma linha, as palhetadas de cada uma podiam ser ouvidas nitidamente, junto a baixo, bateria, teclados e milhares de samples disparados durante as músicas. Curioso notar que alguns gatos pingados reclamaram de um "embolo na sonorização" - o que nos leva à teoria da subjetividade na interpretação de um show. Ao contrário de um disco, onde performance e sonoridade podem ser avaliadas inúmeras vezes, um show é a assimilação de um momento único, influenciada por inúmeros fatores, desde técnicos (posição em relação ao sistema de som) até emocionais. Nesse caso, pelo menos para este que vos escreve, o Primal Scream era a banda certa no lugar certo.
Emparelhados como um pelotão de fuzilamento (com cinco músicos em linha, diferindo do posicionamento padrão das bandas de Rock), os caras abriram o show com uma música inédita ("Alright"), seguindo a linha totalmente Punk de sua sucessora, "Accelerator"
- que ao vivo, como sugere seu nome, é apresentada em velocidade frenética. Enquanto o "diplomata" Mani fazia contato com o público e produzia linhas de baixo pesadas e cheias de groove, Andrew Innes comandava as paredes de guitarras (auxiliado por Kevin Shields e Throbert Young) que recheavam todas as músicas, transformando até as canções mais dançantes em verdadeiras pedradas - "Miss Lucifer", por exemplo, ganhou contornos quase industriais, com um arranjo próximo ao de "Detroit", também executada. O setlist totalmente "arranca toco" não comportava canções mais lentas como "Higher Than The Sun", "Star" e "Come Together", mas não deixou de mostrar a principal característica da banda : o trânsito livre entre gêneros e o total desprendimento a rótulos, trazendo em meio às distorções ecos de Dub, Punk, Soul, Rock, Eletrônica, Psicodelia e Funk.
Depois de mais de uma hora e meia de descarrego elétrico, "Moving On Up" veio como uma lavagem de alma - e enquanto todos com as mãos para o alto cantavam "I'm moving on up now/gettin' out of the darkness/my life shines on/my life shines on", Deus esteve ali, seja lá em qual forma, abençoando aqueles "fiéis".
Quando as luzes enfim foram acesas, Bobby Gillespie resolveu dar mais uma chegada no palco, ainda incrédulo ante o estado de êxtase do público - que obviamente, urrou ao perceber sua presença. Aí não teve jeito : a banda, atendendo a pedidos, voltou na marra para o número final, uma versão totalmente ensandecida de "Kick Out The Jams", para uma platéia completamente fora de si. Na saída, a mistura de desorientação e felicidade era visível no rosto de cada um dos presentes, que se abraçavam, sorriam e comemoravam a realização desse momento mágico. O melhor show do Festival. Amém.

:: Leandro :: 1:17 da manhã ::



17.11.04


Tim Festival - parte 1


Expectativa e empolgação. Os dias que antecederam o primeiro final de semana de novembro foram regidos por essas duas palavrinhas. Não era pra menos : nos dias 5, 6, 7 e 8, o país receberia alguns dos grandes nomes da música contemporãnea. Mais uma vez, o Tim Festival estabeleceu um verdadeiro oásis para os fãs de Música - quatro dias de shows quase ininterruptos e um leque de opções de fazer inveja aos melhores festivais planetários. Leque este que também provocou diversos dilemas pessoais, a começar pela curiosidade em ver a banda nova de Marcelo Yuka (F.U.R.T.O) e a quebradeira dos mexicanos do Kinky (aprovada com louvor pelos poucos gatos pingados que estiveram presentes), abortadas frente à concorrência desleal do Kraftwerk, que se apresentaria na mesma hora, no main stage.
A expectativa em dar novamente de cara com os alemães que seis anos antes (na outra encarnação do Festival) fizeram um dos melhores shows que o país já viu parecia colorir a atmosfera cinzenta e turrona da capital paulista. A impressão que se tinha era que cada uma das pessoas que veriam o show (não só do Kraftwerk, como também de Primal Scream, Brian Wilson e todas as outras atrações) tinha sobre suas cabeças uma espécie de pincel imaginário, que ia deixando rastros coloridos por onde passava e criava uma relação de cumplicidade entre seus "semelhantes". Era só cruzar com um deles, fosse nos corredores do hotel, nas galerias, nas festas, nas ruas, e a troca de sorrisos era praticamente automática. Por alguns dias, São Paulo foi simpática.
Ponto de convergência máxima de todas essas "cores", o jockey clube tinha em sua entrada um grande logo do evento, quase que sugerindo um aviso do tipo "deixe seus problemas aqui". E era esse o clima do público que ali chegava, completamente alheio a problemas pessoais, financeiros, sentimentais - indiferente até ao caótico trânsito da cidade que os acolhia, que fez muita gente (incluindo este que vos escreve) perder o primeiro show da noite. Ok, ninguém estava lá muito interessado em assistir ao set do venezuelano (radicado em NY) Kid 606, mas a julgar pelo terrorismo digital praticado em seus discos, a performance "laptop+samplers" do cara deve ter sido interessante - mesmo que totalmente deslocada de público e palco, como boa parte dos presentes pode atestar. Mas tudo bem, era pisar naquele momentâneo "solo sagrado" e os problemas de organização também pareciam sumir. E olha que não eram poucos : além do trânsito e os problemas de acesso, tinhamos uma demonstração de segurança no mínimo exagerada (da entrada até o palco, o ingresso tinha de ser sacado do bolso nada menos do que seis vezes), um village extremamente reduzido e palcos muito próximos, resultando em inúmeros vazamentos de som. Bairrismo à parte, a edição anterior do evento, no Rio, foi muito melhor realizada, num lugar de acesso fácil, sem problemas com o som (palcos distantes) e com um espaço maior e mais interessante (tanto pela arquitetura do Museu de Arte Moderna como pelo, digamos, "plano de fundo" da cidade.)



O tilintar dos sinos de nossa "Meca", agora já tomada pelas vítimas do engarrafamento, veio através de sintetizadores e vocoders climáticos, que por quase dez minutos anunciaram a chegada dos sacerdotes da noite : escondidos atrás das cortinas, os quatro alemães preparavam-se para abrir oficialmente as celebrações que viriam pelos próximos dias. Entidades poderosas, os membros do Kraftwerk usaram apenas uma pequena dose de "Man Machine" para, assim como uma medusa, paralisarem todos que estavam ali presentes. Dali por diante, o que se viu foi uma petrificação coletiva que durou duas horas : era impossível mover um músculo sequer (apesar da mandíbula cismando em abrir), enquanto o cérebro, lépido, dançava e entrava em diversas órbitas. Quem esteve de longe pode perceber diversos terminais que partiam dos laptops e ligavam-se à caixa craniana de cada um dos espectadores, provocando um processo de hiperatividade cerebral e embaralhando os sentidos : tem gente até agora jurando que ouviu imagens e viu sons.



Indispensáveis para o conceito do show, três projetores juntavam-se no fundo do palco, formando um enorme telão que por vezes complementava o arranjo : impossível dissociar a execução da versão de 2003 (acompanhada de imagens atuais) e a original (com filmagens do início do século passado) de "Tour de France", as animações em 4 bits de "Man Machine", os letreiros luminosos em "Neon Lights", os desfiles de moda em preto-e-branco de "The Model"... O minimalismo (visual e sonoro) adotado pela banda nos últimos anos, trocando a parafernália por singelos laptops, trouxe não só uma abordagem totalmente diferente para o show (em comparação a apresentação anterior por aqui) como também uma espécie de crítica embutida : enquanto projetores de última geração exibiam imagens vintage, laptops reproduziam sons de equipamentos clássicos, utilizados pela própria banda - o futuro, sempre buscando sua redenção no passado.
E o passado da banda, para alegria dos fãs, foi devidamente esmiuçado : O último (fraco) disco não tirou o espaço de hits certeiros como "Trans-Europe Express", "Pocket Calculator", "Radioactivity", "Autobahn", "Numbers" e "Music Non Stop" (que fechou o show). O momento de maior impacto visual foi na já esperada execução de "The Robots", onde seus robôs tomaram o palco - talvez o único instante de maior agitação em toda a apresentação. Curiosamente, o braço de um deles, que cismava em falhar, parecia dar a deixa, comprovada na volta daquelas quatro gélidas criaturas : o homem (ainda) é a máquina infalível. Show perfeito.



A noite, que terminada ali já seria perfeita, tinha ainda mais uma promessa : os 2 Many Dj's, atração principal do after. Figurinhas fáceis no mundo "alternativo" (sic), os irmãos Stephen e David Dewaelle deixaram uma grande expectativa para sua performance, após o set de arrancar o crânio que fizeram na última edição do festival. Antes de atacar as carrapetas, porém, os belgas se apresentariam como músicos, junto ao Soulwax, sua primeira banda - que, ao contrário dos discos, acabou mostrando-se pouco dançante. A por vezes eficiente mistura de Britpop e Eletrônica, em cima do palco soou como uma banda grunge de terceiro escalão. Por vários instantes, a impressão que se tinha era a de ouvir uma banda cover do Soundgarden (tocando mal). Decepcionante, mas pouco perto do que viria a seguir : o Cansei de Ser Sexy, fraude endossada por alguns críticos paulistas (amigos dos membros, provavelmente). O "Eletro barulhento", junto a "atitude" de sua vocalista, beiravam o insuportável. E o pior : a "banda", acostumada a fazer pocket shows com 4, 5 músicas, tocou por mais de uma hora. Uma tormenta que parecia não ter fim, e acabou prejudicando o set dos manos, que durou uma mísera hora e meia - e, verdade seja dita, não foi nem de longe a explosão de estilos da edição anterior. A sensação de ter todas es estações de rádio planetárias ligadas a um dial descontrolado sumiu, dando lugar a um set mais cadenciado, voltado para ritmos mais eletrônicos, sombrios - condizendo com o humor da dupla, que em 2003 dançou com o público, tirou fotos e desceu para os aplausos, e em 2004 sequer olhou para a platéia e saiu sem despedidas. Numa linguagem mais descolê, faltou a "vibe" - que começava a tomar vulto justamente no momento que o show foi encerrado. De qualquer forma, um set dos caras, mesmo nos piores dias, passa longe de ser "fraco", e para quem ainda não tinha visto, os 2 Many provaram porque são os Dj's mais bacanas do planeta : impossível ficar parado. Em meio a tradicional salada sonora (esse ano não tão colorida), os caras mantiveram a tradição de citar as atrações do evento, dessa vez abrindo com uma homenagem ao Kraftwerk e fechando com "Rocks", do Primal Scream - um rápido lembrete do que ainda estaria por vir.

:: Leandro :: 7:50 da manhã ::



15.11.04


Ground Control To Major Tom...

Depois de mais uma longa temporada sem atualizações, o Pop-Scene prepara-se para decolar novamente - sem problemas técnicos, de preferência. Enquanto os últimos ajustes são feitos, algumas histórias (e fotos) da última semana já estão no forno. Passa aí mais tarde, quem sabe já tem alguma coisa no ar...

:: Leandro :: 9:17 da manhã ::



31.10.04


Forever Delayed

A esta altura do campeonato, acho que já deu pra perceber que a coisa não era tão simples quanto o post anterior sugeria. O que seria uma reles troca de processadores e placas transformou-se numa baita novela mexicana. Resultado : textos dos novos de PJ Harvey e Brian Wilson, totalmente no clima de aquecimento para o Tim Festival, abortados. Parece que a coisa finalmente será resolvida nessa semana, mas como estou de partida para a terra da garoa, texto novo só na semana que vem.

Apesar do post rápido e improvisado, não poderia deixar de prestar aqui uma breve homenagem a John Peel, falecido na última semana. Cortando introduções desnecessárias e indo direto ao assunto, Peel foi, sem exageros, responsável pelo lançamento de pelo menos 90% de tudo o que de mais significativo foi produzido na música mundial da década de 60 em diante. Como um amigo bem frisou, "a impressão que dava era que ele sempre existiu desde que existe música boa, e que sempre continuaria a existir com ela." A cabeça sempre aberta a todo tipo de sons e a incessável busca pelo novo, porém, ficam como parte vital de um legado que o eterniza e coloca entre os mais importantes nomes da história da música contemporânea : enquanto nos apresentava a todos os tipos de sonoridades imagináveis, Peel nos ensinava a encarar a música da forma devida. Como diria o outro, o cara "semeou o amor para colher o bem". Espero que sua passagem deixe muitos frutos.


"Our teenage dreams, so hard to beat..."

Ídolo absoluto.

R.I.P.

:: Leandro :: 11:18 da tarde ::



18.10.04


O Pop-Scene vai ficar uns dias de molho, enquanto troco de computador. Lá pro final da semana, a coisa deve voltar ao normal.
Até.

:: Leandro :: 1:09 da tarde ::



12.10.04



Beta Band - Heroes To Zeros (2004)

A arte, principal meio de expressão às nossas impressões (desculpe o pleonasmo), tem como um de seus mais interessantes fatores as diversas formas que um mesmo tema pode ser analisado ou absorvido. Para fundamentar essa idéia, utilizarei-me de um gancho, artifício que os jornalistas, matreiros, usam e abusam visando uma melhor introdução a suas opiniões. Mais do que um gancho, o texto do Of Montreal será utilizado como parâmetro, não só para as semelhanças e diferenças, como para ilustrar a superioridade de um disco em relação ao outro - prática execrável (infelizmente, bastante recorrente na crítica musical), é verdade, mas que nesse caso e somente nesse caso pode ser útil no sentido de tornar a coisa mais esclarecedora (pelo menos pra quem leu o texto/ouviu o disco). Portanto, crianças, não tentem isso em casa.
A semelhança entre os dois grupos, a bem da verdade, começa e termina na dedicação a década de 60. Os traços da música desse período (principalmente a psicodélica) estão presentes no som de ambas, mas ao contrário do Of Montreal e de uma penca de bandas do gênero, a Beta Band recusou-se a entrar numa cápsula de criogênio e parece ter assimilado boa parte da história da música nas décadas seguintes. Os primeiros segundos de "Assessment", faixa de abertura, comprovam parcialmente essa teoria : as baterias e riffs de guitarra afiados remetem às gravações de Steve Lillywhite nos primeiros discos do XTC (cujo som "atmosférico" foi usado pelo mesmo Lillywhite no ano seguinte, no disco de estréia do U2 - normalmente a primeira referência quando se pensa em gravações em salas enormes). A mesma faixa, começando Power-Pop até transformar-se uma suíte psicodélica, cheia de sopros no final, elimina qualquer possibilidade de semelhança com a turma lo-fi : aqui, o buraco é mais embaixo e a impressão que temos logo de cara é de uma banda experiente, com músicos "cascudos" e gravação de primeira.
Outra diferença brutal entre "Satanic Panic in The Attic" e este "Heroes To Zeros" está no foco das canções : apesar de grandes músicos, os integrantes da Beta Band nunca tiveram o dom de fazer grandes melodias e letras. Para compensar o demérito, os caras desenvolveram um senso de estrutura fora do normal, através de muita ralação em cima dos arranjos, que passaram a ser o foco das canções. O barato de seus discos, então, está em contemplar as paisagens criadas - normalmente grandes campos, iluminados pela mescla de tons alaranjados do fim de tarde com o crescente azul da noite que já ameaça cair. A mudança de ambientações numa mesma faixa (como a passagem de violões para uma nota tensa, quase fúnebre de piano em "Lion Thief") é tamanha que, em alguns momentos, parece nos transportar a outro planeta, com base de tempo e gravidade totalmente aleatórios, mas com atmosfera e calor que nos é familiar. Não por um acaso, muita gente rotulou o som da banda, desde seus primeiros lançamentos, como "Space Rock".
Rótulos à parte, o fato é que tamanha aplicação instrumental trouxe aos barbudos de Edimburgo um raro atributo : fazer algo extremamente complexo soar simples. Taí um exemplo vivo da teoria de que a inspiração é pelo menos 70% fruto da transpiração.
Sendo assim, uma grande canção depende em grande parte da dedicação que lhe é conferida; uma melodia inicial seria, então, nada menos que a ponta de um iceberg - o grande trabalho é justamente trazê-lo à tona. Para os mais céticos, uma conferida no "Anthology" dos Beatles não seria de todo mal : compare a versão demo de "Strawberry Fields Forever" à que ficou imortalizada no disco e imagine o quanto de tempo e neurônios foram gastos para tamanha evolução ocorrer.
A falsa idéia de simplicidade sugerida pelos arranjos, apesar de saudável, traz uma sensação de "déjà-vu" numa audição rápida, superficial. O som da banda, a princípio um emaranhado de referências, parece encaixar-se numa fórmula tão surrada quanto a utilizada para começar o texto, mas aos poucos essa torre de babel de influências vai se homogenizando e ganhando vida própria, ao mesmo tempo que novos detalhes são descobertos e a estrutura das músicas parece ficar mais complexa.
Se em seu novo álbum, o grupo não chega aos níveis de esquizofrenia dos tempos do maravilhoso "The 3 Ep's", pelo menos a escrita é mantida : produzido pela banda e mixado pelo ultra-hypado Nigel Godrich, "Heroes To Zeros" pode ser considerado como o trabalho mais "acessível" de sua carreira, mas não faz nenhum tipo de concessão no que diz respeito a sua "montagem". Claro, as referências sonoras, principalmente a Pink Floyd e Beatles permanecem, mas as intervenções sônicas que marcaram sua carreira também estão lá, intactas. Em "Out-Side", provavelmente a faixa mais próxima do "Pop" que o disco oferece (junto a já citada "Assessment"), temos uma levada agitada e melodia fácil cobertas por uma enxurrada de samples, sintetizadores e ruídos diversos. Um maníaco por referências poderia citar os "versos Magical Mystery Tour"/"refão Abbey Road" de "Space Beatle", os órgãos do Spiritualized em "Rhododendron", a ponte do Who nos "la-la-la's" de "Space", entre outras, mas como já dito anteriormente, o barato aqui é se recostar na cadeira e apreciar o visual. Um par de headphones, vez por outra, será bem-vindo.
E quando, na última faixa (a bela "Pure For") os versos "I'm so glad you found me" são entoados, a coisa toma uma proporção profética/irônica : o grupo, que já anunciou sua aposentadoria para o final do ano, parece deixar uma mensagem para uma geração futura. No meio dos escombros de décadas passadas, quem sabe não encontrem uma banda que, alheia a público e crítica, lançou excelentes discos e traçou uma carreira exemplar ? Eles sem dúvida ficarão satisfeitos.

:: Leandro :: 1:25 da manhã ::



11.10.04


Zorra Total

Depois do atraso de uma semana, a Ticketmaster deu um show de desorganização na distribuição e venda dos ingressos para o Tim Festival. Várias pessoas tiveram problemas para comprar pelo site (servidor não comportando o movimento e saindo do ar constantemente), e alguns pontos de venda (no Rio, pelo menos) sequer tinham material na sexta-feira. Conclusão : quem estava preocupado com o esgotamento quase relâmpago das entradas para o show de Brian Wilson (ou Brian ILSIN, como grafado nos bilhetes para o setor B) e não queria pagar a absurda taxa de 20% do valor mais nove reais POR INGRESSO, teve de fazer um tour pela cidade. Isso sem falar nas filas que alguns locais apresentaram (teve gente que ficou inacreditáveis quatro horas esperando).
Fica então a dúvida : qual a razão de ser de uma empresa que, desde seu advento, só fez encarecer abusivamente o preço dos shows, vendendo a idéia de "facilidade e conforto na compra de ingressos" ?
Ok, não precisa responder.

:: Leandro :: 5:50 da manhã ::



7.10.04


Block Rockin' Bitch



Noventa reais. Esse é o preço que você desembolsará caso deseje ver de perto os dois camaradas da foto. Levando em conta que o ingresso para o main stage do Tim Festival sairá por 80, e que este não preenche nem 10% da capacidade de um estádio de futebol,
fica a pergunta : por que não fazer o evento com preços mais acessíveis ? Será que temos 40, 50, 60 mil pessoas com condições de pagar essa quantia para ver os irmãozinhos ?
De qualquer forma, a atitude do Nokia Trends em trazer os caras para um show desse porte, num país onde jovens parecem fechar os olhos pra tudo que não reze na cartilha "Linkin Park e afins", é digna de aplausos. Se sua dúvida em ver a dupla independe de questões financeiras, não pestaneje. A desorientação visual e sonora é garantida.

:: Leandro :: 2:28 da manhã ::



4.10.04



Of Montreal - Satanic Panic in the Attic (2004)

Não é de hoje que os anos sessenta estão na moda. O apelo visual da Pop Art, o paz-amor-lisergia-bucolismo hippie (travestido em raves, ecstasy e Eletrônica) e, o que importa por aqui, a produção musical da década são apenas alguns exemplos de manifestações (artísticas ou não) que são objeto de culto da geração atual - a seu modo, continuando o processo de perpetuação dos "anos dourados". Mas, como toda moda, o revival sessentista (bem como a irritante celebração oitentista que vai se espalhando como um vírus atualmente) se apresenta de forma totalmente superficial : na música (mais especificamente, no Rock), por exemplo, vemos a diversidade do período diluída em uma equivocada idéia de segmentação, criando um esteriótipo com a celebração de artistas que seguem uma linha semelhante. Falando de forma ilustrativa, é cool (expressão que por aqui sempre será usada como pejorativa) amar os Beach Boys e os Kinks, o Folk e o Twee Pop; citar "Odessey and Oracle" dos Zombies como a grande obra-prima perdida, exaltar várias bandas obscuras. Não que esses não o mereçam (muito pelo contrário), mas por outro lado, a simples menção de
nomes como Rolling Stones, Jimi Hendrix, Yardbirds, Cream, Led Zeppelin, Humble Pie, Free e outros que "faziam a chapa esquentar", causa uma torção nos (empinados) narizes dessa rapaziada - deixando até a pensar, pela maior proximidade dessas bandas com a música negra, se essa atitude não esconde um racismo involuntário. Pode até soar como uma paranóica teoria de conspiração, mas já reparou a falta de coerência na rejeição da Black Music pelo público de Rock ?
Alheio a essa discussão, o Of Montreal, conscientemente ou não, encaixa-se no esteriótipo citado : a inclinação para o Pop Psicodélico e harmonias vocais da década de 60, além do caráter lo-fi que assolou a cena alternativa nos anos 90, traz à banda grandes chances de cair nos braços do povinho descolê. Mesmo inferior ao Neutral Milk Hotel e ao Olivia Tremor Control, o grupo, ao lado do Elf Power, pode ser considerado o último sobrevivente do bacanudo selo Elephant 6 - já que o Apples In Stereo, outro remanescente dessa leva, não dá sinais de vida desde um constrangedor disco lançado em 2002.
Os dois anos que separam "Satanic Panic in the Attic" de "Aldhills Arboretum" trouxeram novos ares ao trabalho da banda, inicialmente perceptíveis apenas aos fãs e conhecedores de longa data. A eficácia melódica do disco, se não salta aos ouvidos logo de cara, vai sendo descoberta aos poucos - no meu caso, numa fila de banco, onde comecei a cantarolar a letra de "Disconnect the Dots", dona de uma melodia que vai grudar em seus ouvidos no mínimo por alguns dias. Não fosse tão porcamente gravada e mixada, a música teria tudo para ganhar as FM's, inclusive as do Brasil. Aliás, uma das maiores, senão a maior falha da banda é a de insistir numa sonoridade tosca, que não tem razão de ser numa época em que um computador e um mínimo de periféricos podem garantir uma gravação cristalina, independente da sujeira que venha a ser adicionada. De qualquer forma, a falta de pressão dos primeiros
trabalhos (que insistiam em mixar todos os canais em stereo radical) é levemente suprida neste, sem dúvidas o disco mais Pop de sua carreira - tanto no sentido das composições, quanto na sonoridade e até nos vocais mais caprichados, que já estragaram belas canções no passado. Tá, vamos combinar que algumas faixas continuam soando como arremedos, as baterias eletrônicas e programações primárias usadas não são nada inspiradoras, as guitarras parecem anoréxicas de tão magras e a voz de Kevin Barnes continua cismando em desafinar vez por outra, mas ainda assim, esse é o álbum mais polido e assimilável que a banda já produziu - e por incrível que pareça, os trabalhos anteriores estão longe de serem fracos.
O fato da melhor faixa do disco constar apenas de voz e violão nos leva a concluir que Barnes é muito melhor compositor que arranjador : "City Bird", algo como um "Syd Barret interpreta Paul McCartney", é provavelmente a única canção que não apresenta falha alguma. O que se vê em todo o resto é um equilíbrio entre erros e acertos, como em "Climb The Ladder", cujas harmonias vocais (não devendo nada às de Lennon/McCartney) conduzidas por um piano são estragadas por um refrão desafinado, ou o refrão de "Spike The Senses", monumentalmente acompanhado por um teclado analógico distorcido, que desemboca numa segunda parte com uma base capenga. Um dos grandes "senãos" em toda sua carreira, a propósito, é justamente a falta de eficácia de guitarras/baixo/bateria. A tríade máxima do Rock N' Roll sempre deixou a desejar nos álbuns, com performances pouco inspiradas e sonoridade, nas palavras de um amigo, "totalmente muquirana". A falta de peso, junto ao excesso de informações nos arranjos (e a já citada baixa qualidade na gravação) fazem o contrapeso às ótimas composições e melodias de Barnes, deixando a banda num status mediano e impedindo a ruptura com o gueto indie/alternativo (sic) que o disco parece ensaiar. Se continuar por esse caminho (talvez com umas aulas de economia e uns discos do Cream e do Led Zeppelin), os caras, aliás, o casal pode até faturar uns trocados a mais nos próximos trabalhos, e quem sabe, conquistar uma merecida consagração.
Pra quem estranhou a palavra "casal" na última frase, um esclarecimento : salvo raras colaborações, o disco foi inteiramente gravado por Barnes e sua mulher, Nina. Além de mostrar a importância da presença feminina (não só na banda, que produziu seu melhor disco, como no coração de um homem), a entrada de Nina acabou por fechar um ciclo : foram-se os dias de troca-troca de membros e psicodelismo forçado, foi-se até mesmo o conceito atrás do nome da banda (dado após o pé na bunda que Barnes tomou
de uma garota de Montreal), ficou um caminho novinho a ser explorado. Agora é torcer pra que eles tomem a estrada certa.
Os fãs já devem ter comprado/baixado, mas pra quem ainda não conhece, "Satanic Panic in the Attic" vale a conferida. Na pior das hipóteses, você pelo menos vai poder fazer uma presença com aquela gatinha indie que há tempos está de olho.

:: Leandro :: 1:32 da manhã ::



28.9.04



Sonic Youth - Sonic Nurse (2004)

"Tempo é dinheiro". Esse ditado, junto a semelhantes do tipo "o tempo urge", deveria ser banido quando tratando de assuntos relacionados a música. Poderia começar aqui um longo discurso sobre o processo criativo, composição ou gravação, mas centremos naquilo que fará a conexão com o disco em questão (sim, isso é um prólogo) : a absorção e subsequente teorização. Deixando em termos mais claros, e já fazendo uma introdução, "engolir sem mastigar causa indigestão" (palavras de minha vó).
Vivemos numa época onde o acesso irrestrito a informação traz uma curiosa ambiguidade : de um lado, temos a velocidade (e gratuidade) dos mp3 e seus vorazes consumidores, boa parte deles garotos querendo digerir a história da música em uma semana. De outro, temos os críticos (e aqui, restrinjo a coisa aos Brasileiros), cada vez mais relapsos com seu trabalho - alimentando ainda mais a falta de interesse de seu público, e criando uma nada animadora relação de reciprocidade. Para ilustrar melhor a segunda situação, colo aqui o diálogo que tive recentemente com um crítico de um famoso jornal carioca (cujo nome, por óbvias questões éticas, será poupado):
"E aí, já ouviu o disco 'x' ?"
"Ouvi uma vez ontem, ouvirei de novo amanhã na redação para resenhá-lo."
E dessa forma, cada vez mais as resenhas vão se isentando de informação e sentimento, encaixando-se no formato "tijolinho" - ou seja, um amontoado de palavras que mais parecem extraídas de um release do que opiniões próprias. Nesse ponto, a situação do amigo jornalista se equivale a do nerd compulsivo : como levar em consideração a opinião proveniente de uma relação do tipo "ouvi/gostei(ou não)/parti pra outra" ? Mais ainda, como avaliar a qualidade de um trabalho após uma, duas audições ? Esse comportamento (pseudo)metódico traz opiniões calcadas numa suposta "razão" em detrimento de emoção - como se a audição e assimilação de uma música fosse um processo lógico, definido por funções matemáticas. Fosse assim, as críticas já seriam feitas por computadores. Não que nossos jornalistas não sejam, er, "robóticos" : basta um disco novo lançado e lá estão elas, as mesmas palavras, as mesmas opiniões, uma irritante "reação em cadeia". Com "Sonic Nurse" (ufa!) não foi diferente : bastou o disco chegar às lojas para nossos colegas, do alto de sua petulância, sapecarem frases formadas como "o Sonic Youth se acomodou", "a banda tenta revisitar seus dias de glória" e outras que não merecem a menção. Apesar das opiniões (?) de bate pronto, por aqui o disquinho protagoniza uma situação completamente oposta : já passam alguns meses desde a primeira audição, e ele continua crescendo, ganhando força e fazendo mais sentido a cada novo giro.
Se a inquietação é a principal força motora da música, o Sonic Youth pode se orgulhar : em seu décimo nono (!) disco, a banda continua longe do que se pode chamar de "acomodação". Mais do que isso, o espírito aventureiro, mesmo que redirecionado, continua intacto, bem como a explosão de impulsos elétricos de seus primeiros discos. Usando as frases do "manual", poderia dizer que o Sonic Youth é a típica banda que "criou suas raízes, mas continua explorando novos territórios a cada disco" - mas não sei até onde isso seria válido, já que "intuição" parece ser a palavra de ordem dos caras. Talvez esteja aí o segredo de sua longevidade.
Aproveitando a deixa, lanço aqui uma pergunta : quantos artistas chegaram a esse ponto da carreira sem perderem o rumo (ou o interesse) ? Bod Dylan, Neil Young, Lee Perry, David Bowie, Johnny Cash... Dificilmente a lista teria nomes suficientes para encher os dedos das duas mãos - o que já nos dá uma idéia do posto do agora quinteto no cânone da música Pop (indiferente do alcance de cada um dos nomes mencionados). Mesmo com essa indiscutível vantagem estatística, a banda desde sempre foi vítima de negligência por parte da crítica. A impressão que fica é que sua inclusão numa possível lista de artistas geniais sempre foi adiada "para o próximo disco" - situação que já vem se arrastando há pelo menos quinze anos. Seus detratores costumam citar a barulheira inócua de 90% do Rock Alternativo Norte-Americano como demérito (já que a banda é tida como influência primordial), mas como diminuir a importância de um artista pela reação que sua música pode ter causado ? Seriam então os Beatles culpados pelos assassinatos cometidos por Charles Manson ?
Outro argumento usado regularmente é a suposta semelhança entre seus discos - o que só prova a visão superficial da grande maioria, restrita a enxergar "microfonias e acordes estranhos" ao invés de explorar o vasto oceano que se esconde entre as camadas sonoras das canções. O fato é que o que alguns cismam em chamar (de forma pejorativa) de "padrão Sonic Youth" é uma linguagem elaborada pela banda, um "idioma" totalmente peculiar, que foge completamente dos padrões estabelecidos pela música popular. Mais um motivo, então, para enaltecer sua obra : qualquer pessoa que arranhe um violão sabe da dificuldade em se criar algo decididamente próprio, tal qual as digitais de uma identidade - quem dirá, de forma tão característica.
Os principais articuladores dessa linguagem são Thurston Moore e Lee Ranaldo, sem exageros a melhor dupla de guitarristas que o Rock viu desde Keith Richards/Mick Taylor. A forma com que os dois elaboram o fraseado, passando batido pela dialética "riff/solos" e arrancando todo tipo de grunhidos, microfonias, dissonâncias e sim, riffs grudentos de seus instrumentos (normalmente tocados em afinações bizarras) é, no mínimo, única - e traduz perfeitamente o conceito de "levar o instrumento a outro patamar". A guitarra, aqui, é conduzida a territórios inexplorados, seja pela forma, digamos, distinta que é tocada, ou pelos timbres entortados que são cuspidos pelos amplificadores - parte cuidadosamente trabalhada, por sinal, fazendo da integração entre execução (técnica) e sonoridade um dos maiores indicadores do "frescor" que emana das seis (no caso, doze) cordas da banda. Sempre na busca pelo novo, a dupla tem como passatempo o "circuit bending" de guitarras, pedais e até amplificadores (Em tempo : circuit bendingé o nome dado ao processo de alteração de circuitos eletrônicos - troca de componentes, posição de fios, etc - em equipamentos musicais). Imagine toda a sorte de esporreira que os ouvidos dos caras devem ter sido expostos com essa brincadeira, em mais de 20 anos... Mas já dizia o ditado : "Só o tempo traz experiência" (sacou a contradição com o início do texto ?), e hoje a banda consegue surgir com novos sons de forma cada vez mais natural e intuitiva (e aqui, me refiro tanto aos timbres quanto às afinações esdrúxulas e seus respectivos acordes). Lançando mão de mais uma frase batida (dessa vez, válida), "a banda parte da cacofonia para chegar num turbilhão de emoções" - e em uma simples troca de acordes, consegue passar toda a tensão que as bandas de Post-Rock tentam construir em composições de oito, nove minutos.
Juntando-se ao já consagrado "casalzinho", temos a ilustre presença do agora membro oficial Jim O'Rourke, formando um "ménage à trois" que em "Nurse" nos leva a orgasmos guitarrísticos (ui!), deixando pra trás tudo que foi feito em termos de seis cordas no ano de 2004 (até então). Quase todas as faixas do disco são conduzidas por 3 (!) linhas consecutivas (uma ao centro, outra à direita e uma terceira à esquerda), que apesar de executarem desenhos distintos, interagem perfeitamente não só entre si, mas também com os vocais, em nenhum momento sobrando no arranjo. Em outras palavras : mesmo entupido de guitarras, o disco passa uma (falsa) impressão de economia e simplicidade. Coisa de gênio. Ouça-o num par de headphones e descubra o que se esconde atrás de cada guitarra (não só nos três canais principais, mas também nos inúmeros overdubs, que por vezes aparecem e somem como fantasmas no meio da faixa). Se estiver se sentindo mais inspirado (a idéia é essa), apague as luzes e prepare-se para uma viagem quase lisérgica : o som praticado pela banda vem cada vez mais se aproximando de uma versão cosmopólita do Rock Psicodélico da década de 60. Uma viagem adaptada para uma Nova-Iorque semi-deserta, com todos os arranha-céus, construções antigas, becos escuros e grandes avenidas encobertas por uma fina poeira ainda proveniente do fatídico 11 de setembro. Uma poeira que incomoda e traz uma leve sensação de afastamento emocional; um clima quase fúnebre, que a banda consegue transformar em poesia - não a dos românticos, mas a abstracionista, que mexe com o subconsciente. Aqui, o que importa é ser levado pelo som : "Trace paper, fly onward", diz um trecho de "New Hampshire". E assim, como uma folha, o ouvinte vai revoando sem direção, arrebatado pelas correntes de guitarra. A essa altura, procurar um sentido para a viagem seria quase um anticlímax - já que a intenção é justamente a perda, ou pelo menos a alteração destes. Portanto, esqueça as investigações metalinguísticas esboçadas em algumas faixas (lembrando os tempos do injustiçado "NYC Ghosts And Flowers") e encare a coisa como uma experiência extra-sensorial.
Voltando ao plano terrestre, as composições de Kim Gordon, quatro delas, poderiam inicialmente depor contra o disco. Pra não estender o assunto, basta dizer que os dois últimos trabalhos têm nas canções da moça seus momentos mais fracos - mas aqui, ela promove uma volta aos spotlights (em todos os sentidos) não vista desde os tempos de "Goo" e "Dirty". "Pattern Recognition", faixa de abertura, não deve nada aos singles dessa época, mas ao mesmo tempo, parece introduzir os fãs mais xiitas a essa "nova" fase (que já vem de pelo menos quatro discos). A outra faixa que poderia ser aceita na "tentativa de revival" suposta pela imprensa é a já citada "New Hampshire", que não ficaria deslocada se jogada no clássico "Daydream Nation". E só.
Uma característica marcante dos dois últimos álbuns, que por aqui foi de certa forma descartada é a presença de uma faixa central, que conecte todas as outras : apesar do manifesto anti-bélico da épica "Stones" soar como uma espécie de síntese e dividí-lo, o disco ficaria muito bem "centralizado" nas mãos de "The Dripping Dream", ou da ultra-dissonante "Paper Cup Exit" - a já tradicional faixa única de Lee Ranaldo. A falsa calmaria do arranjo, acompanhado de acordes de guitarra totalmente atonais, trazem dimensões apocalípticas aos vocais - que no verso "It's later than it seems", conseguem suprimir todo o ímpeto adolescente de causar medo através de teclados diabólicos e versos sobre o coisa-ruim. A realidade, infelizmente, pode ser mais assustadora do que qualquer relato sobrenatural.
Apesar da longa duração, nada no disco é dispensável - e sua audição, por incrível que pareça, parece fazer o tempo passar em outra velocidade ("perda dos sentidos", lembra ?). O único senão fica por conta de seu encerramento : "Peace Attack" parece deixar algo a ser acrescentado - mas aí, mais uma vez lembramos que seguir convenções nunca foi a intenção da banda. E se, em "NYC Ghosts And Flowers", as "pequenas flores rachavam o concreto", aqui temos um ecossistema próprio, formado pelo contraste entre o colorido radiante das flores já grandes e o cinza surrado do cimento.
Finalizando de uma forma atípica (à moda do grupo), lanço aqui uma frase publicitária (aproveitando ainda, um verso) :
"Let nurse give you a shot". Cuidado pra não ficar viciado.

:: Leandro :: 1:56 da manhã ::



23.9.04


Enquanto isso...

- Texto da edição de aniversário do London Calling, no Rádio Agência.

- O Ronca-Ronca, programa de Maurício Valladares, finalmente voltou ao rádio. Música boa (sem preconceitos), informação, curiosidades, tudo conduzido com bom-humor, no velho clima de bate-papo que sempre foi sua marca registrada (e torna tudo ainda mais agradável). Toda segunda, à meia-noite na Rádio Cidade. Imperdível.

- "Tudo vira bosta". Será que a letra do novo (?) hit-novela-das-oito de Rita Lee é autobiográfica ?

:: Leandro :: 1:08 da manhã ::



21.9.04


"There are consequences to breaking the heart of a murdering bastard..."



Apesar do tempo (ainda) escasso para uma atualização decente, não poderia deixar de abrir uma brecha para um rápido comentário sobre o espetacular "Kill Bill vol. 2" - ainda sob a euforia de uma sessão recém assistida (na telona, como todo filme deve ser visto).
Aqui, Tarantino novamente lança mão de vários clichés para nos contar a história do cinema - não de uma forma acadêmica, mas de seu ponto de vista um tanto peculiar, indo desde o Terror Trash (com uma paródia escancarada de "A Volta dos Mortos Vivos") até os filmes de arte Europeus. Apesar da overdose de referências, o clima da película fica dividido entre duas das principais paixões do diretor : as artes marciais e gangsters orientais (que já dominavam a primeira parte) e (aqui entra a novidade) os Westerns, sejam os de John Ford ou o "Spaghetti" de Sergio Leone. A diversificação dessas referências já poderia, por si só, ser um indicativo, mas o que faz de "Vol.2" um trabalho mais "rico" é o maior desenvolvimento das personagens, tirando a idéia de violência por violência deixada pelo primeiro - o que não faz deste um filme menos violento, que fique bem claro. A sede de vingança da "noiva" continua promovendo um banho de sangue sem precedentes, mas aqui, deparamo-nos com questões existenciais e até dilemas familiares (!) - tudo conduzido com um senso de humor característico, que arranca gargalhadas nos momentos menos prováveis. Pra quem duvidava do teor humorístico das esguichadas de sangue em "Vol.1", Taranta (um comediante nato) deu uma colher de chá e apresentou Pai Mei, um dos melhores personagens de toda a trama - e cujas cenas me fizeram rir como há muito não ocorria.
Ainda na praia de "melhores personagens", temos Daryl Hannah no melhor de sua forma como Elle. Se na primeira parte, a loura já havia causado furor em uma breve aparição, aqui ela protagoniza alguns dos momentos cruciais do filme. Outro que andava sumido (pelo menos pra mim) e volta de forma arrebatadora é David Carradine, que na pele de Bill vive um dos grandes vilões (?) dos últimos anos.
De forma mais genérica, e com uma certa dose de negligência, poderia apagar o último parágrafo e dizer que Quentin Tarantino sabe, como poucos, dirigir seu elenco : todas as atuações em "Kill Bill Vol.2" são dignas de longas dissertações - mas esqueça isso, assim como a parte técnica, os efeitos sonoros exagerados, os ângulos Hitchcockeanos das câmeras, o balanço entre poesia/brutalidade das cenas de luta, as sacadas parodiais, o cenário... O que importa é que "Kill Bill Vol.2" consegue, por duas horas numa sala escura, fazer você esquecer do mundo e mergulhar completamente numa trama cuja única intenção é a de divertir - isso, numa época em que o cinema cada vez mais reivindica um status de "arte", é no mínimo digno de aplausos. Genial.

:: Leandro :: 1:06 da manhã ::



18.9.04




Enquanto o Pop-Scene não é devidamente atualizado, deixo aqui um link para o Rádio Agência, onde voltarei a colaborar regularmente. Para (re)começar com o pé direito, nada melhor do que falar do Tim Festival, principal assunto das últimas semanas para os que gostam de música. Clique no logo e dê uma conferida - e volte regularmente.

:: Leandro :: 1:33 da manhã ::



31.8.04



Beastie Boys - To The 5 Boroughs (2004)

Sábado a noite, conversa de mesa de bar. Futebol, uma dose, mulheres, mais alcool, política, desce mais uma... Com os nervos levemente exaltados e o nível etílico relativamente alto, o assunto acabou chegando na música Pop - mais precisamente (e sendo bastante generoso) na irregular discografia dos Rolling Stones a partir do final da década de 70.
"O grande problema", filosofava um dos presentes, "é a forma que encaramos um novo trabalho de um artista que admiramos. A necessidade de confronto com trabalhos anteriores, junto à ansiedade, acabam trazendo uma grande carga de responsabilidade, normalmente não correspondida pelo disco - e este acaba subaproveitado". O fervoroso defensor de Mick Jagger & cia continuou :"Na boa, como comparar um novo disco dos Stones a um clássico como "Beggar's Banquet" ou "Let It Bleed" ? Dessa forma, a música já chega a seus ouvidos numa posição de desvantagem - afinal, como fazer para superar o que já é perfeito ?".
Apesar de condenar à forca boa parte da produção Stoneana das últimas duas décadas, sou obrigado a reconhecer os argumentos de nosso advogado do diabo : a mentalidade opressora (seja pela ansiedade do público, a pressão das gravadoras ou a própria necessidade de superação do artista) já implodiu inúmeras carreiras, algumas promissoras (a famosa "síndrome do segundo disco"), outras estabilizadas. Num mundo ideal, todos ouviríamos músicas, discos e artistas sem partir de nenhum preceito.
É chegada, então, a hora das más notícias : estamos longe de um mundo ideal - e após seis longos anos, os Beastie Boys voltam às paradas com essa frase estampada em letras garrafais. Leve essa breve descrição da forma que achar mais adequada : "To The 5 Boroughs" pode ser encarado como um grito inconformado diante do imperialismo Norte-Americano, um endosso às palavras do amigo alcoolizado do início do texto ou, para os mais pessimistas, o início do fim da banda. Os argumentos desse último grupo não deixam de ser válidos : desde o segundo disco, os Beasties vêm trilhando um caminho de pioneirismo, senão na música Pop, ao menos no Hip-Hop, transcendendo o estilo e dando passos gigantescos a cada novo trabalho. O retrocesso caracterizado pelas batidas simples e tom monocromático do disco seriam, então, a prova de que a banda teria perdido o fio da meada. A idéia de "olhar pra trás" proposta não reproduz nenhum elemento de seus trabalhos anteriores, seja o clima irresponsável/arrogante de "Licensed To Ill", as colagens sonoras de "Paul's Boutique", a transgressão instrumental de "Check Your Head" e "Ill Communication", ou o ecletismo vintage de "Hello Nasty". Em outras palavras, "To The 5 Boroughs" tem tudo para ser o pior disco da banda.
Por outro lado, temos os argumentos apresentados na resenha da Pitchfork (sim, o site indie) : segundo seu autor, a criação de laços com bandas/artistas traz uma espécie de "compromisso", uma pré-disposição a gostar de seus trabalhos, por mais irregulares que sejam - um ponto de vista praticamente antagônico ao apresentado lá em cima. Talvez esse conflito de opiniões seja a resposta para as recepções tão díspares que o álbum recebeu, sendo ao mesmo tempo alvo de elogios rasgados e críticas vorazes.
Diante desse quadro, fica difícil receber a nova empreitada de uma de suas bandas prediletas sem tomar partido - restava saber o que predominaria, a ansiedade/pressão ou os laços afetivos. A resposta veio nos primeiros segundos de "Ch-Check It Out", faixa de abertura. O sangue esquentando nas veias, o arrepio e, logo, a vontade de sair pulando pelo quarto : a música da banda ainda me remete à camisa encharcada de suor e o sorriso no rosto daquele longínquo dia de março, data de seu show. Se a música pode ser encarada como um momento de auto-conhecimento, os Beastie Boys sempre serão um elo com meus quinze anos de idade, uma espécie de portal mágico para um período onde o que importava eram festinhas e sessions de skate. Essa capacidade de transportar, mesmo que momentaneamente, para um período onde tudo era mais fácil já é, por si só, uma grande virtude - e antes que me chamem de nostálgico ou saudosista, lembro que o disco dos Raveonettes, lançado ano passado, provocou reação parecida.
A adrenalina injetada na primeira faixa é administrada até os últimos instantes do disco : apesar de levemente repetitivo (pelo menos para os "padrões Beastie Boys" de produção), "To The 5 Boroughs" ganha o ouvinte pela vitalidade, passando por cima de boa parte da produção do Rap atual como um caminhão em alta velocidade. Inteiramente produzido pela banda (fato inédito em sua carreira até então), o álbum pode ser considerado, com uma certa dose de cara-de-pau, "intimista". Saem os instrumentos, as vinhetas, as paletas sonoras, ficam apenas as batidas e (poucos) samples, o que acaba favorecendo o trabalho do DJ Mix Master Mike, que "esfrega o sabão" como nunca. A guinada acabou resultando em faixas curtas e diretas, que contrastam com a cada vez mais incensada produção dos discos de Hip-Hop atuais. Depois de mais de uma década conduzindo a boiada, os Beasties resolveram correr na direção oposta - e quem sabe assim criam um contra-fluxo capaz de estourar a barreira de plástico levantada por picaretas como os Neptunes e Eminem (este, recebendo alfinetadas quase nominais em alguns momentos). Não fique surpreso caso, dentro de algum tempo, uma espécie de revival Old-School venha a ocorrer : claro, o disco tem alguns samples "modernosos", como o hapsichord de "Right Right Now Now" ou o berimbau de "Hey, Fuck You", mas no fundo dos arranjos, lá está ela, a boa e velha TR808, produzindo os batidões que imortalizaram não só produções de Hip-Hop, como boa parte da música Eletrônica da década de 80.
As "proezas" de George W. Bush e seus asseclas são, como já mencionado, o alvo principal das letras - e aqui, vale a pena ressaltar o mérito da banda em fazer um disco de teor panfletário (em alguns momentos, quase didático) sem escorregar nos clichés do politicamente correto ou enveredar pelos tortuosos caminhos do tédio. Fazendo trocadilho com um de seus primeiros sucessos (inclusive, usado numa das faixas), o mote do disco é o de "Party for your right to fight". E de festa os caras entendem : se a primeira faixa não te convenceu, passe para "Triple Trouble", uma espécie de "'Hey Ladies' burrona" (com direito a sample de "Good Times", quase uma convenção no Hip-Hop) que sintetiza a aura festeira do trabalho - é ouvi-la e imaginar uma rapaziada de cabelo black power chacoalhando o esqueleto ao som das percussões (sampleadas, claro) e scratches. As associações a elementos clássicos do Rap podem ser feitas em vários outros momentos, seja na vontade de sair pelas ruas (de preferência, as de Nova Iorque) com um rádio no ombro ("3 The Hard Way", "That's It That's All") ou no impulso de fazer um break de chão ao som de "The Brouhaha" ou "Oh, Word ?" (essa, com uma sensacional voz robótica chamando o MC da vez). Curiosamente, o ponto fraco do álbum é justamente sua faixa central : "An Open Letter To NYC", uma declaração de amor que, assim como a ilustração da capa (a cidade, ainda com as Torres do WTC), soa um tanto utópica - ou será que alguém acredita que negros, asiáticos, árabes, latinos e americanos desfrutam das mesmas oportunidades ? Os samples de guitarra também contribuem para o total destoamento da canção, que acaba sugada pelos delays e sintetizadores espaciais de sua sucessora ("Crawlspace").
"Who got the power to make a difference ?", cantam eles ao encerramento do disco - que desceu de forma satisfatória nas primeiras audições, foi perdendo a força, mas depois de um tempo de descanso, voltou com gás totalmente renovado. A incerteza no veredicto final pode até continuar, mas o fato é que, nesse meio tempo, "To The 5 Boroughs" foi um dos discos mais ouvidos em 2004 por aqui - e isso tem que significar algo. E quanto a pergunta final (mesmo que descontextualizada), a resposta é dada pelos próprios, no título da música : "We Got The".

Ah, uma análise imparcial ? Fica para um disco do Godspeed You Black Emperor...

:: Leandro :: 6:39 da manhã ::



28.8.04


Higher Than The Sun

Lembra do post do dia cinco de julho ? Refrescando a memória :
"Começam a surgir alguns prováveis nomes para a segunda edição do Tim Festival. Fontes relacionadas ao evento falam de um line-up que, se confirmado, arrancará lágrimas deste que vos escreve. Os nomes ainda são sigilosos, mas deixo aqui um pedido : acenda já uma velinha."

Depois de mais de um mês de angústia, as lágrimas finalmente puderam correr.



A simples aparição do caboclinho aí de cima já é suficiente para esmagar tudo o que aconteceu no último Tim Festival - e olha que não foi pouca coisa. O Primal Scream vem aí para marcar nossas vidas.

:: Leandro :: 3:50 da manhã ::



12.8.04



Graham Coxon - Happiness In Magazines (2004)

Fato : a guitarra é o maior fetiche da música Pop. Seu filho mais pródigo, o Rock, sempre teve o instrumento de seis cordas como símbolo máximo, seja pelo rompimento com os padrões sonoros "clássicos" proporcionado pela distorção (representando uma forma de subversão), ou pela simples esporreira provocada pela amplificação (que o caracterizou como, err, "música jovem"). A estabilização do gênero como o definitivo formato da música da segunda metade do século XX trouxe, em termos estéticos, uma divisão de holofotes entre vocalistas e guitarristas - e o mercadão tratou de criar um esteriótipo em torno de ambos, ficando os segundos marcados como criaturas misteriosas e excêntricas ("padrão" até hoje seguido à risca por inúmeras bandas).
Um dos mais importantes representantes da "classe" na década de 90, Graham Coxon pouco herdou desse DNA enxertado pela indústria :tímido, com visual à la Elvis Costello (poupem-me da ladainha "indie/óculos de aro grosso"), ele era quase uma antítese da imagem projetada por sua banda - ou, vá lá, pelo Pop Britânico. Em outras palavras, Graham estava mais próximo de um integrante do Ride do que de guitarrista do Blur. A postura contida acabou rendendo-lhe algumas críticas maldosas, onde a palavra "inexpressivo" era normalmente utilizada. Ledo engano : escondido na lateral do palco, Graham era o responsável pelos riffs de guitarra que, unindo um estilo pouco ortodoxo a uma grande sensibilidade Pop, formaram parte vital das composições que levaram a banda ao superestrelato.
Na segunda metade da década de 90, Graham começou a gravar discos solo - como de praxe, na intenção inicial de dar vazão a idéias que não tinham espaço na banda. Logo, sua explosão de idéias desencadearia um processo introspectivo que culminaria num afastamento (físico e psicológico) cada vez maior de seus compaheiros de banda - além dos inevitáveis problemas com álcool e drogas.
Depois de uma risível tentativa de resumir a carreira de um artista em dois parágrafos (e antes que o texto tome ares de "The Sun" ou "Contigo"), deixarei de lado os temas "reabilitação" e "saída da banda", passando diretamente ao seu novo disco."Happiness In Magazines" pode ser encarado como uma inversão de mão em sua discografia : Se nos primeiros quatro trabalhos, Graham tentou de todas as formas evitar comparações a sua (ex) banda, aqui (talvez sabendo para onde a egotrip melancólica levou gente como Syd Barrett e Nick Drake - só pra citar duas influências primordiais) ele volta a fazer o Pop rasgado e cheio de referências que o consagrou há uma década. Usando termos esgotados pelo pessoal do All Music Guide, pode-se dizer que Graham passou de "singer/songwriter" a "guitarist/frontman" - como forma ilustrativa, claro, já que ele gravou todos os instrumentos do disco, que já abre lascando fogo : na voz marrenta de Damon Albarn, "Spectacular" teria tudo para ser um mega-hit, nos moldes de Song 2. Não por um acaso, a faixa já é o terceiro (sim, terceiro) single do álbum. A ponte Kinks-Undertones-Blur (repare no número de vezes que a banda foi citada) é repetida no primeiro compacto, a igualmente sensacional "Freakin' Out" : guitarras no vermelho, melodias chiclete e ritmo frenético colocam as duas no páreo pelo título de "single de rock do ano". Já "Bittersweet Bundle Of Misery" (que vem sendo executada regularmente na MTV Brasileira) causou um princípio de polêmica devido a semelhança com "Coffee & TV" (música composta pelo próprio). Baboseiras à parte, a faixa traz uma melodia que ficará em sua cabeça por um bom tempo, além de preguiçosos acordes arrancados de uma semiacústica, e um irresistível solo de Hammond no final.
Grande parte do potencial radiofônico do disco pode ser creditado à produção de Stephen Street, não só pela sonoridade, mas pela própria estrutura das composições. Fã incondicional do trabalho de Graham, Street (que o considera o melhor guitarrista com quem já trabalhou) incentivou a volta daquilo que o músico fazia melhor : riffs de guitarra e a famosa segunda voz, que em terças e quintas engordava os vocais, deixando as melodias ainda mais memoráveis. A estética lo-fi também foi chutada para escanteio : foram-se as sobras de bateria e frequências emboladas, entraram instrumentos devidamente arrumados na mixagem, porém sem perder o (oportuno) clima de descontração. Tudo isso prova a importância do trabalho de um produtor que conheça seu "cliente".
As influências explícitas e melodias mais "amigáveis" não são os únicos elos de ligação com discos como "Parklife" ou "Modern Life Is Rubbish" : aqui, o cinismo é novamente empregado para alfinetar os hábitos da vida moderna - no caso de "No Good Time", para descrever os pintas que infestam o "cenário"(sic) "alternativo"(sic). Lembrando o já citado Elvis Costello (dos tempos de "This Year's Model"), Coxon destila sarcasmo sobre o arquétipo do "cool", numa letra que poderia ser perfeitamente dedicada a alguns habitués da noite carioca. Só faltou uma referência ao tatibitati dos fotologs - fica aí a dica...
"Girl Done Gone" é mais um momento de ineditismo, um Bluesão cru, com guitarra saturada, hum de amplificador e bateria atolada ("influência" dos White Stripes ?). A letra e a performance vocal são meio constrangedoras, é verdade, mas o solo final faz valer a máxima que, em alguns casos, palavras são desnecessárias : aqui, vemos um artista pondo suas vísceras à mostra, tirando notas que soam como gritos desesperados - e fogem completamente do padrão inicial da música.
"All Over Me", com seus vocais cheios de eco de fita (processo usado e abusado por John Lennon), é mais uma coleção de acordes tocantes, melodia fácil e letra bobinha - ou seja, um forte candidato a single. A esta altura, você já deve ter percebido que as letras definitivamente não são o ponto alto do disco; mas caramba, estamos tratando de música Pop, e (aproveitando o gancho de Lennon) a não ser que ache "Plastic Ono Band" melhor que "Revolver", você há de concordar que as letras por si só nunca garantiram a unanimidade de um trabalho.
As influências continuam escancaradas nas faixas seguintes : "People Of The Earth" é uma pregação comandada pelo "pastor" Mark E Smith - trocando os corais gospel por caóticas camadas de distorção, e os fiéis por porra-loucas de alguma espelunca Nova-Iorquina. Já as guitarras cheias de trêmolo de "Are You Ready" e os riffs de "Bottom Bunk" remetem ao Rock da década de 50 - coincidentemente (?), as duas faixas representam o momento da queda da peteca - devidamente levantada pela faixa seguinte ("Don't Be A Stranger"), que ao lado de "Hopeless Friend", desce redondinha e lembra o Blur (sim, de novo) do início de carreira.
No fim das contas, a volta às origens parece ter sido benéfica : além das pazes com o grande público, o disco representa uma revitalização, não só de sua carreira, mas de sua vida. Reza a lenda que até sua aparência foi rejuvenescida. Depois de anos de reclusão, Graham saiu para ver o dia, e se encantou com o que achou. "Happiness In Magazines" é a resposta para uma dúvida que há muito devia passar em sua cabeça : a relação entre "introspecção x integridade artística". E sobre um belo arranjo de piano (cortado por uma guitarra que soa como o vento soprando ao largo), ele fecha o disco, declamando para quem quiser ouvir : "Life, i love you". Um sorriso não faz mal a ninguém - muito pelo contrário.


Epílogo - O disco foi lançado no Brasil numa edição caprichada, com capinha "pseudo-digipack" e faixa bônus. Pode investir que vale a pena.

:: Leandro :: 1:37 da manhã ::



22.7.04


  Funky Days Are Back Again

O estado de abandono que o Pop-Scene se encontra deve-se basicamente a uma palavrinha : Mash-ups. Estou produzindo um disquinho totalmente voltado para o "gênero" : esquema caseiro, só eu, o computador e meus discos. A fase inicial do projeto reduziu a pó o tempo para os textos, mas agora a coisa já está mais encaminhada, e o Pop-Scene deve ser atualizado nos próximos dias. 
O disco ainda não tem previsão para ser finalizado (estou fazendo tudo com calma, experimentando ao máximo), mas assim que estiver pronto, será devidamente anunciado  - e jogado na net.  
Para finalizar, presto uma homenagem àqueles que foram (e são) minhas principais fontes de inspiração : 

 
   
 Chemical Brothers, 2 Many Dj's, Danger Mouse... Todos devem sua existência a eles.




:: Leandro :: 5:28 da tarde ::



 
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