Sonic Youth - Sonic Nurse (2004)
"Tempo é dinheiro". Esse ditado, junto a semelhantes do tipo "o tempo urge", deveria ser banido quando tratando de assuntos relacionados a música. Poderia começar aqui um longo discurso sobre o processo criativo, composição ou gravação, mas centremos naquilo que fará a conexão com o disco em questão (sim, isso é um prólogo) : a absorção e subsequente teorização. Deixando em termos mais claros, e já fazendo uma introdução, "engolir sem mastigar causa indigestão" (palavras de minha vó).
Vivemos numa época onde o acesso irrestrito a informação traz uma curiosa ambiguidade : de um lado, temos a velocidade (e gratuidade) dos mp3 e seus vorazes consumidores, boa parte deles garotos querendo digerir a história da música em uma semana. De outro, temos os críticos (e aqui, restrinjo a coisa aos Brasileiros), cada vez mais relapsos com seu trabalho - alimentando ainda mais a falta de interesse de seu público, e criando uma nada animadora relação de reciprocidade. Para ilustrar melhor a segunda situação, colo aqui o diálogo que tive recentemente com um crítico de um famoso jornal carioca (cujo nome, por óbvias questões éticas, será poupado):
"E aí, já ouviu o disco 'x' ?"
"Ouvi uma vez ontem, ouvirei de novo amanhã na redação para resenhá-lo."
E dessa forma, cada vez mais as resenhas vão se isentando de informação e sentimento, encaixando-se no formato "tijolinho" - ou seja, um amontoado de palavras que mais parecem extraídas de um release do que opiniões próprias. Nesse ponto, a situação do amigo jornalista se equivale a do nerd compulsivo : como levar em consideração a opinião proveniente de uma relação do tipo "ouvi/gostei(ou não)/parti pra outra" ? Mais ainda, como avaliar a qualidade de um trabalho após uma, duas audições ? Esse comportamento (pseudo)metódico traz opiniões calcadas numa suposta "razão" em detrimento de emoção - como se a audição e assimilação de uma música fosse um processo lógico, definido por funções matemáticas. Fosse assim, as críticas já seriam feitas por computadores. Não que nossos jornalistas não sejam, er, "robóticos" : basta um disco novo lançado e lá estão elas, as mesmas palavras, as mesmas opiniões, uma irritante "reação em cadeia". Com "Sonic Nurse" (ufa!) não foi diferente : bastou o disco chegar às lojas para nossos colegas, do alto de sua petulância, sapecarem frases formadas como "o Sonic Youth se acomodou", "a banda tenta revisitar seus dias de glória" e outras que não merecem a menção. Apesar das opiniões (?) de bate pronto, por aqui o disquinho protagoniza uma situação completamente oposta : já passam alguns meses desde a primeira audição, e ele continua crescendo, ganhando força e fazendo mais sentido a cada novo giro.
Se a inquietação é a principal força motora da música, o Sonic Youth pode se orgulhar : em seu décimo nono (!) disco, a banda continua longe do que se pode chamar de "acomodação". Mais do que isso, o espírito aventureiro, mesmo que redirecionado, continua intacto, bem como a explosão de impulsos elétricos de seus primeiros discos. Usando as frases do "manual", poderia dizer que o Sonic Youth é a típica banda que "criou suas raízes, mas continua explorando novos territórios a cada disco" - mas não sei até onde isso seria válido, já que "intuição" parece ser a palavra de ordem dos caras. Talvez esteja aí o segredo de sua longevidade.
Aproveitando a deixa, lanço aqui uma pergunta : quantos artistas chegaram a esse ponto da carreira sem perderem o rumo (ou o interesse) ? Bod Dylan, Neil Young, Lee Perry, David Bowie, Johnny Cash... Dificilmente a lista teria nomes suficientes para encher os dedos das duas mãos - o que já nos dá uma idéia do posto do agora quinteto no cânone da música Pop (indiferente do alcance de cada um dos nomes mencionados). Mesmo com essa indiscutível vantagem estatística, a banda desde sempre foi vítima de negligência por parte da crítica. A impressão que fica é que sua inclusão numa possível lista de artistas geniais sempre foi adiada "para o próximo disco" - situação que já vem se arrastando há pelo menos quinze anos. Seus detratores costumam citar a barulheira inócua de 90% do Rock Alternativo Norte-Americano como demérito (já que a banda é tida como influência primordial), mas como diminuir a importância de um artista pela reação que sua música pode ter causado ? Seriam então os Beatles culpados pelos assassinatos cometidos por Charles Manson ?
Outro argumento usado regularmente é a suposta semelhança entre seus discos - o que só prova a visão superficial da grande maioria, restrita a enxergar "microfonias e acordes estranhos" ao invés de explorar o vasto oceano que se esconde entre as camadas sonoras das canções. O fato é que o que alguns cismam em chamar (de forma pejorativa) de "padrão Sonic Youth" é uma linguagem elaborada pela banda, um "idioma" totalmente peculiar, que foge completamente dos padrões estabelecidos pela música popular. Mais um motivo, então, para enaltecer sua obra : qualquer pessoa que arranhe um violão sabe da dificuldade em se criar algo decididamente próprio, tal qual as digitais de uma identidade - quem dirá, de forma tão característica.
Os principais articuladores dessa linguagem são Thurston Moore e Lee Ranaldo, sem exageros a melhor dupla de guitarristas que o Rock viu desde Keith Richards/Mick Taylor. A forma com que os dois elaboram o fraseado, passando batido pela dialética "riff/solos" e arrancando todo tipo de grunhidos, microfonias, dissonâncias e sim, riffs grudentos de seus instrumentos (normalmente tocados em afinações bizarras) é, no mínimo, única - e traduz perfeitamente o conceito de "levar o instrumento a outro patamar". A guitarra, aqui, é conduzida a territórios inexplorados, seja pela forma, digamos, distinta que é tocada, ou pelos timbres entortados que são cuspidos pelos amplificadores - parte cuidadosamente trabalhada, por sinal, fazendo da integração entre execução (técnica) e sonoridade um dos maiores indicadores do "frescor" que emana das seis (no caso, doze) cordas da banda. Sempre na busca pelo novo, a dupla tem como passatempo o "circuit bending" de guitarras, pedais e até amplificadores (Em tempo : circuit bendingé o nome dado ao processo de alteração de circuitos eletrônicos - troca de componentes, posição de fios, etc - em equipamentos musicais). Imagine toda a sorte de esporreira que os ouvidos dos caras devem ter sido expostos com essa brincadeira, em mais de 20 anos... Mas já dizia o ditado : "Só o tempo traz experiência" (sacou a contradição com o início do texto ?), e hoje a banda consegue surgir com novos sons de forma cada vez mais natural e intuitiva (e aqui, me refiro tanto aos timbres quanto às afinações esdrúxulas e seus respectivos acordes). Lançando mão de mais uma frase batida (dessa vez, válida), "a banda parte da cacofonia para chegar num turbilhão de emoções" - e em uma simples troca de acordes, consegue passar toda a tensão que as bandas de Post-Rock tentam construir em composições de oito, nove minutos.
Juntando-se ao já consagrado "casalzinho", temos a ilustre presença do agora membro oficial Jim O'Rourke, formando um "ménage à trois" que em "Nurse" nos leva a orgasmos guitarrísticos (ui!), deixando pra trás tudo que foi feito em termos de seis cordas no ano de 2004 (até então). Quase todas as faixas do disco são conduzidas por 3 (!) linhas consecutivas (uma ao centro, outra à direita e uma terceira à esquerda), que apesar de executarem desenhos distintos, interagem perfeitamente não só entre si, mas também com os vocais, em nenhum momento sobrando no arranjo. Em outras palavras : mesmo entupido de guitarras, o disco passa uma (falsa) impressão de economia e simplicidade. Coisa de gênio. Ouça-o num par de headphones e descubra o que se esconde atrás de cada guitarra (não só nos três canais principais, mas também nos inúmeros overdubs, que por vezes aparecem e somem como fantasmas no meio da faixa). Se estiver se sentindo mais inspirado (a idéia é essa), apague as luzes e prepare-se para uma viagem quase lisérgica : o som praticado pela banda vem cada vez mais se aproximando de uma versão cosmopólita do Rock Psicodélico da década de 60. Uma viagem adaptada para uma Nova-Iorque semi-deserta, com todos os arranha-céus, construções antigas, becos escuros e grandes avenidas encobertas por uma fina poeira ainda proveniente do fatídico 11 de setembro. Uma poeira que incomoda e traz uma leve sensação de afastamento emocional; um clima quase fúnebre, que a banda consegue transformar em poesia - não a dos românticos, mas a abstracionista, que mexe com o subconsciente. Aqui, o que importa é ser levado pelo som : "Trace paper, fly onward", diz um trecho de "New Hampshire". E assim, como uma folha, o ouvinte vai revoando sem direção, arrebatado pelas correntes de guitarra. A essa altura, procurar um sentido para a viagem seria quase um anticlímax - já que a intenção é justamente a perda, ou pelo menos a alteração destes. Portanto, esqueça as investigações metalinguísticas esboçadas em algumas faixas (lembrando os tempos do injustiçado "NYC Ghosts And Flowers") e encare a coisa como uma experiência extra-sensorial.
Voltando ao plano terrestre, as composições de Kim Gordon, quatro delas, poderiam inicialmente depor contra o disco. Pra não estender o assunto, basta dizer que os dois últimos trabalhos têm nas canções da moça seus momentos mais fracos - mas aqui, ela promove uma volta aos spotlights (em todos os sentidos) não vista desde os tempos de "Goo" e "Dirty". "Pattern Recognition", faixa de abertura, não deve nada aos singles dessa época, mas ao mesmo tempo, parece introduzir os fãs mais xiitas a essa "nova" fase (que já vem de pelo menos quatro discos). A outra faixa que poderia ser aceita na "tentativa de revival" suposta pela imprensa é a já citada "New Hampshire", que não ficaria deslocada se jogada no clássico "Daydream Nation". E só.
Uma característica marcante dos dois últimos álbuns, que por aqui foi de certa forma descartada é a presença de uma faixa central, que conecte todas as outras : apesar do manifesto anti-bélico da épica "Stones" soar como uma espécie de síntese e dividí-lo, o disco ficaria muito bem "centralizado" nas mãos de "The Dripping Dream", ou da ultra-dissonante "Paper Cup Exit" - a já tradicional faixa única de Lee Ranaldo. A falsa calmaria do arranjo, acompanhado de acordes de guitarra totalmente atonais, trazem dimensões apocalípticas aos vocais - que no verso "It's later than it seems", conseguem suprimir todo o ímpeto adolescente de causar medo através de teclados diabólicos e versos sobre o coisa-ruim. A realidade, infelizmente, pode ser mais assustadora do que qualquer relato sobrenatural.
Apesar da longa duração, nada no disco é dispensável - e sua audição, por incrível que pareça, parece fazer o tempo passar em outra velocidade ("perda dos sentidos", lembra ?). O único senão fica por conta de seu encerramento : "Peace Attack" parece deixar algo a ser acrescentado - mas aí, mais uma vez lembramos que seguir convenções nunca foi a intenção da banda. E se, em "NYC Ghosts And Flowers", as "pequenas flores rachavam o concreto", aqui temos um ecossistema próprio, formado pelo contraste entre o colorido radiante das flores já grandes e o cinza surrado do cimento.
Finalizando de uma forma atípica (à moda do grupo), lanço aqui uma frase publicitária (aproveitando ainda, um verso) :
"Let nurse give you a shot". Cuidado pra não ficar viciado.