"There are consequences to breaking the heart of a murdering bastard..."
Apesar do tempo (ainda) escasso para uma atualização decente, não poderia deixar de abrir uma brecha para um rápido comentário sobre o espetacular "Kill Bill vol. 2" - ainda sob a euforia de uma sessão recém assistida (na telona, como todo filme deve ser visto).
Aqui, Tarantino novamente lança mão de vários clichés para nos contar a história do cinema - não de uma forma acadêmica, mas de seu ponto de vista um tanto peculiar, indo desde o Terror Trash (com uma paródia escancarada de "A Volta dos Mortos Vivos") até os filmes de arte Europeus. Apesar da overdose de referências, o clima da película fica dividido entre duas das principais paixões do diretor : as artes marciais e gangsters orientais (que já dominavam a primeira parte) e (aqui entra a novidade) os Westerns, sejam os de John Ford ou o "Spaghetti" de Sergio Leone. A diversificação dessas referências já poderia, por si só, ser um indicativo, mas o que faz de "Vol.2" um trabalho mais "rico" é o maior desenvolvimento das personagens, tirando a idéia de violência por violência deixada pelo primeiro - o que não faz deste um filme menos violento, que fique bem claro. A sede de vingança da "noiva" continua promovendo um banho de sangue sem precedentes, mas aqui, deparamo-nos com questões existenciais e até dilemas familiares (!) - tudo conduzido com um senso de humor característico, que arranca gargalhadas nos momentos menos prováveis. Pra quem duvidava do teor humorístico das esguichadas de sangue em "Vol.1", Taranta (um comediante nato) deu uma colher de chá e apresentou Pai Mei, um dos melhores personagens de toda a trama - e cujas cenas me fizeram rir como há muito não ocorria.
Ainda na praia de "melhores personagens", temos Daryl Hannah no melhor de sua forma como Elle. Se na primeira parte, a loura já havia causado furor em uma breve aparição, aqui ela protagoniza alguns dos momentos cruciais do filme. Outro que andava sumido (pelo menos pra mim) e volta de forma arrebatadora é David Carradine, que na pele de Bill vive um dos grandes vilões (?) dos últimos anos.
De forma mais genérica, e com uma certa dose de negligência, poderia apagar o último parágrafo e dizer que Quentin Tarantino sabe, como poucos, dirigir seu elenco : todas as atuações em "Kill Bill Vol.2" são dignas de longas dissertações - mas esqueça isso, assim como a parte técnica, os efeitos sonoros exagerados, os ângulos Hitchcockeanos das câmeras, o balanço entre poesia/brutalidade das cenas de luta, as sacadas parodiais, o cenário... O que importa é que "Kill Bill Vol.2" consegue, por duas horas numa sala escura, fazer você esquecer do mundo e mergulhar completamente numa trama cuja única intenção é a de divertir - isso, numa época em que o cinema cada vez mais reivindica um status de "arte", é no mínimo digno de aplausos. Genial.