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12.10.04



Beta Band - Heroes To Zeros (2004)

A arte, principal meio de expressão às nossas impressões (desculpe o pleonasmo), tem como um de seus mais interessantes fatores as diversas formas que um mesmo tema pode ser analisado ou absorvido. Para fundamentar essa idéia, utilizarei-me de um gancho, artifício que os jornalistas, matreiros, usam e abusam visando uma melhor introdução a suas opiniões. Mais do que um gancho, o texto do Of Montreal será utilizado como parâmetro, não só para as semelhanças e diferenças, como para ilustrar a superioridade de um disco em relação ao outro - prática execrável (infelizmente, bastante recorrente na crítica musical), é verdade, mas que nesse caso e somente nesse caso pode ser útil no sentido de tornar a coisa mais esclarecedora (pelo menos pra quem leu o texto/ouviu o disco). Portanto, crianças, não tentem isso em casa.
A semelhança entre os dois grupos, a bem da verdade, começa e termina na dedicação a década de 60. Os traços da música desse período (principalmente a psicodélica) estão presentes no som de ambas, mas ao contrário do Of Montreal e de uma penca de bandas do gênero, a Beta Band recusou-se a entrar numa cápsula de criogênio e parece ter assimilado boa parte da história da música nas décadas seguintes. Os primeiros segundos de "Assessment", faixa de abertura, comprovam parcialmente essa teoria : as baterias e riffs de guitarra afiados remetem às gravações de Steve Lillywhite nos primeiros discos do XTC (cujo som "atmosférico" foi usado pelo mesmo Lillywhite no ano seguinte, no disco de estréia do U2 - normalmente a primeira referência quando se pensa em gravações em salas enormes). A mesma faixa, começando Power-Pop até transformar-se uma suíte psicodélica, cheia de sopros no final, elimina qualquer possibilidade de semelhança com a turma lo-fi : aqui, o buraco é mais embaixo e a impressão que temos logo de cara é de uma banda experiente, com músicos "cascudos" e gravação de primeira.
Outra diferença brutal entre "Satanic Panic in The Attic" e este "Heroes To Zeros" está no foco das canções : apesar de grandes músicos, os integrantes da Beta Band nunca tiveram o dom de fazer grandes melodias e letras. Para compensar o demérito, os caras desenvolveram um senso de estrutura fora do normal, através de muita ralação em cima dos arranjos, que passaram a ser o foco das canções. O barato de seus discos, então, está em contemplar as paisagens criadas - normalmente grandes campos, iluminados pela mescla de tons alaranjados do fim de tarde com o crescente azul da noite que já ameaça cair. A mudança de ambientações numa mesma faixa (como a passagem de violões para uma nota tensa, quase fúnebre de piano em "Lion Thief") é tamanha que, em alguns momentos, parece nos transportar a outro planeta, com base de tempo e gravidade totalmente aleatórios, mas com atmosfera e calor que nos é familiar. Não por um acaso, muita gente rotulou o som da banda, desde seus primeiros lançamentos, como "Space Rock".
Rótulos à parte, o fato é que tamanha aplicação instrumental trouxe aos barbudos de Edimburgo um raro atributo : fazer algo extremamente complexo soar simples. Taí um exemplo vivo da teoria de que a inspiração é pelo menos 70% fruto da transpiração.
Sendo assim, uma grande canção depende em grande parte da dedicação que lhe é conferida; uma melodia inicial seria, então, nada menos que a ponta de um iceberg - o grande trabalho é justamente trazê-lo à tona. Para os mais céticos, uma conferida no "Anthology" dos Beatles não seria de todo mal : compare a versão demo de "Strawberry Fields Forever" à que ficou imortalizada no disco e imagine o quanto de tempo e neurônios foram gastos para tamanha evolução ocorrer.
A falsa idéia de simplicidade sugerida pelos arranjos, apesar de saudável, traz uma sensação de "déjà-vu" numa audição rápida, superficial. O som da banda, a princípio um emaranhado de referências, parece encaixar-se numa fórmula tão surrada quanto a utilizada para começar o texto, mas aos poucos essa torre de babel de influências vai se homogenizando e ganhando vida própria, ao mesmo tempo que novos detalhes são descobertos e a estrutura das músicas parece ficar mais complexa.
Se em seu novo álbum, o grupo não chega aos níveis de esquizofrenia dos tempos do maravilhoso "The 3 Ep's", pelo menos a escrita é mantida : produzido pela banda e mixado pelo ultra-hypado Nigel Godrich, "Heroes To Zeros" pode ser considerado como o trabalho mais "acessível" de sua carreira, mas não faz nenhum tipo de concessão no que diz respeito a sua "montagem". Claro, as referências sonoras, principalmente a Pink Floyd e Beatles permanecem, mas as intervenções sônicas que marcaram sua carreira também estão lá, intactas. Em "Out-Side", provavelmente a faixa mais próxima do "Pop" que o disco oferece (junto a já citada "Assessment"), temos uma levada agitada e melodia fácil cobertas por uma enxurrada de samples, sintetizadores e ruídos diversos. Um maníaco por referências poderia citar os "versos Magical Mystery Tour"/"refão Abbey Road" de "Space Beatle", os órgãos do Spiritualized em "Rhododendron", a ponte do Who nos "la-la-la's" de "Space", entre outras, mas como já dito anteriormente, o barato aqui é se recostar na cadeira e apreciar o visual. Um par de headphones, vez por outra, será bem-vindo.
E quando, na última faixa (a bela "Pure For") os versos "I'm so glad you found me" são entoados, a coisa toma uma proporção profética/irônica : o grupo, que já anunciou sua aposentadoria para o final do ano, parece deixar uma mensagem para uma geração futura. No meio dos escombros de décadas passadas, quem sabe não encontrem uma banda que, alheia a público e crítica, lançou excelentes discos e traçou uma carreira exemplar ? Eles sem dúvida ficarão satisfeitos.

:: Leandro :: 1:25 AM ::



 
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