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17.11.04


Tim Festival - parte 1


Expectativa e empolgação. Os dias que antecederam o primeiro final de semana de novembro foram regidos por essas duas palavrinhas. Não era pra menos : nos dias 5, 6, 7 e 8, o país receberia alguns dos grandes nomes da música contemporãnea. Mais uma vez, o Tim Festival estabeleceu um verdadeiro oásis para os fãs de Música - quatro dias de shows quase ininterruptos e um leque de opções de fazer inveja aos melhores festivais planetários. Leque este que também provocou diversos dilemas pessoais, a começar pela curiosidade em ver a banda nova de Marcelo Yuka (F.U.R.T.O) e a quebradeira dos mexicanos do Kinky (aprovada com louvor pelos poucos gatos pingados que estiveram presentes), abortadas frente à concorrência desleal do Kraftwerk, que se apresentaria na mesma hora, no main stage.
A expectativa em dar novamente de cara com os alemães que seis anos antes (na outra encarnação do Festival) fizeram um dos melhores shows que o país já viu parecia colorir a atmosfera cinzenta e turrona da capital paulista. A impressão que se tinha era que cada uma das pessoas que veriam o show (não só do Kraftwerk, como também de Primal Scream, Brian Wilson e todas as outras atrações) tinha sobre suas cabeças uma espécie de pincel imaginário, que ia deixando rastros coloridos por onde passava e criava uma relação de cumplicidade entre seus "semelhantes". Era só cruzar com um deles, fosse nos corredores do hotel, nas galerias, nas festas, nas ruas, e a troca de sorrisos era praticamente automática. Por alguns dias, São Paulo foi simpática.
Ponto de convergência máxima de todas essas "cores", o jockey clube tinha em sua entrada um grande logo do evento, quase que sugerindo um aviso do tipo "deixe seus problemas aqui". E era esse o clima do público que ali chegava, completamente alheio a problemas pessoais, financeiros, sentimentais - indiferente até ao caótico trânsito da cidade que os acolhia, que fez muita gente (incluindo este que vos escreve) perder o primeiro show da noite. Ok, ninguém estava lá muito interessado em assistir ao set do venezuelano (radicado em NY) Kid 606, mas a julgar pelo terrorismo digital praticado em seus discos, a performance "laptop+samplers" do cara deve ter sido interessante - mesmo que totalmente deslocada de público e palco, como boa parte dos presentes pode atestar. Mas tudo bem, era pisar naquele momentâneo "solo sagrado" e os problemas de organização também pareciam sumir. E olha que não eram poucos : além do trânsito e os problemas de acesso, tinhamos uma demonstração de segurança no mínimo exagerada (da entrada até o palco, o ingresso tinha de ser sacado do bolso nada menos do que seis vezes), um village extremamente reduzido e palcos muito próximos, resultando em inúmeros vazamentos de som. Bairrismo à parte, a edição anterior do evento, no Rio, foi muito melhor realizada, num lugar de acesso fácil, sem problemas com o som (palcos distantes) e com um espaço maior e mais interessante (tanto pela arquitetura do Museu de Arte Moderna como pelo, digamos, "plano de fundo" da cidade.)



O tilintar dos sinos de nossa "Meca", agora já tomada pelas vítimas do engarrafamento, veio através de sintetizadores e vocoders climáticos, que por quase dez minutos anunciaram a chegada dos sacerdotes da noite : escondidos atrás das cortinas, os quatro alemães preparavam-se para abrir oficialmente as celebrações que viriam pelos próximos dias. Entidades poderosas, os membros do Kraftwerk usaram apenas uma pequena dose de "Man Machine" para, assim como uma medusa, paralisarem todos que estavam ali presentes. Dali por diante, o que se viu foi uma petrificação coletiva que durou duas horas : era impossível mover um músculo sequer (apesar da mandíbula cismando em abrir), enquanto o cérebro, lépido, dançava e entrava em diversas órbitas. Quem esteve de longe pode perceber diversos terminais que partiam dos laptops e ligavam-se à caixa craniana de cada um dos espectadores, provocando um processo de hiperatividade cerebral e embaralhando os sentidos : tem gente até agora jurando que ouviu imagens e viu sons.



Indispensáveis para o conceito do show, três projetores juntavam-se no fundo do palco, formando um enorme telão que por vezes complementava o arranjo : impossível dissociar a execução da versão de 2003 (acompanhada de imagens atuais) e a original (com filmagens do início do século passado) de "Tour de France", as animações em 4 bits de "Man Machine", os letreiros luminosos em "Neon Lights", os desfiles de moda em preto-e-branco de "The Model"... O minimalismo (visual e sonoro) adotado pela banda nos últimos anos, trocando a parafernália por singelos laptops, trouxe não só uma abordagem totalmente diferente para o show (em comparação a apresentação anterior por aqui) como também uma espécie de crítica embutida : enquanto projetores de última geração exibiam imagens vintage, laptops reproduziam sons de equipamentos clássicos, utilizados pela própria banda - o futuro, sempre buscando sua redenção no passado.
E o passado da banda, para alegria dos fãs, foi devidamente esmiuçado : O último (fraco) disco não tirou o espaço de hits certeiros como "Trans-Europe Express", "Pocket Calculator", "Radioactivity", "Autobahn", "Numbers" e "Music Non Stop" (que fechou o show). O momento de maior impacto visual foi na já esperada execução de "The Robots", onde seus robôs tomaram o palco - talvez o único instante de maior agitação em toda a apresentação. Curiosamente, o braço de um deles, que cismava em falhar, parecia dar a deixa, comprovada na volta daquelas quatro gélidas criaturas : o homem (ainda) é a máquina infalível. Show perfeito.



A noite, que terminada ali já seria perfeita, tinha ainda mais uma promessa : os 2 Many Dj's, atração principal do after. Figurinhas fáceis no mundo "alternativo" (sic), os irmãos Stephen e David Dewaelle deixaram uma grande expectativa para sua performance, após o set de arrancar o crânio que fizeram na última edição do festival. Antes de atacar as carrapetas, porém, os belgas se apresentariam como músicos, junto ao Soulwax, sua primeira banda - que, ao contrário dos discos, acabou mostrando-se pouco dançante. A por vezes eficiente mistura de Britpop e Eletrônica, em cima do palco soou como uma banda grunge de terceiro escalão. Por vários instantes, a impressão que se tinha era a de ouvir uma banda cover do Soundgarden (tocando mal). Decepcionante, mas pouco perto do que viria a seguir : o Cansei de Ser Sexy, fraude endossada por alguns críticos paulistas (amigos dos membros, provavelmente). O "Eletro barulhento", junto a "atitude" de sua vocalista, beiravam o insuportável. E o pior : a "banda", acostumada a fazer pocket shows com 4, 5 músicas, tocou por mais de uma hora. Uma tormenta que parecia não ter fim, e acabou prejudicando o set dos manos, que durou uma mísera hora e meia - e, verdade seja dita, não foi nem de longe a explosão de estilos da edição anterior. A sensação de ter todas es estações de rádio planetárias ligadas a um dial descontrolado sumiu, dando lugar a um set mais cadenciado, voltado para ritmos mais eletrônicos, sombrios - condizendo com o humor da dupla, que em 2003 dançou com o público, tirou fotos e desceu para os aplausos, e em 2004 sequer olhou para a platéia e saiu sem despedidas. Numa linguagem mais descolê, faltou a "vibe" - que começava a tomar vulto justamente no momento que o show foi encerrado. De qualquer forma, um set dos caras, mesmo nos piores dias, passa longe de ser "fraco", e para quem ainda não tinha visto, os 2 Many provaram porque são os Dj's mais bacanas do planeta : impossível ficar parado. Em meio a tradicional salada sonora (esse ano não tão colorida), os caras mantiveram a tradição de citar as atrações do evento, dessa vez abrindo com uma homenagem ao Kraftwerk e fechando com "Rocks", do Primal Scream - um rápido lembrete do que ainda estaria por vir.

:: Leandro :: 7:50 AM ::



 
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