Depois da conquista do troféu Teia de Aranha 2004, o Pop-Scene volta ao trabalho às vésperas das famosas listas de final de ano. Mas antes disso, continuemos com nossos compromissos - mesmo que já descontextualizados...
Tim Festival - Parte 2
A prévia do dia que estava por vir, dada no final do set dos 2 Many Dj's, foi complementada com uma visão no mínimo curiosa : enquanto todos deixavam o village iluminados pelos primeiros raios solares, um garoto literalmente nadava contra a corrente e, trajando uma camiseta de PJ Harvey, preparava-se para adentrar as dependências do Jockey Clube. Mais de doze horas separariam o show daquele momento, que trouxe uma aura de frenesi normalmente vista nos festivais de porte maior. Definitivamente, o sábado reservaria emoções diferentes, a começar por suas atrações : enquanto Kraftwerk e 2 Many Dj's, principais nomes do dia anterior, já haviam se apresentado por aqui, o "compacto duplo" (PJ Harvey/Primal Scream) que dividiria as atenções no palco principal nunca pisara em solo Brasileiro.
A sensação de total "entrega" ao evento (uma alternativa para mencionar a já desgastada "expectativa") foi refletida em todos os momentos do dia, do café da manhã até um bizarro incidente com a polícia à tarde - que, de uma forma ou outra, só contribuíram com a ansiedade para a noite que cismava em não chegar. Coisa de fã - e naquela altura, inúmeros destes já deviam estar com a mente funcionando na mesma frequência do xiita que enfrentava um longo dia na frente das roletas. Agora, era rezar pra que outros não tivessem a mesma idéia.
Felizmente, duas saudáveis horas de antecedência foram suficientes para garantir um lugar ao sol (no caso, na grade) - mas, citando um livro escrito a alguns milênios, "é necessário passar por um purgatório para se chegar ao paraíso". E assim, o acesso ao main stage transformou-se num pequeno inferno, graças a um atraso na passagem de som que obrigou um cancelamento na entrada principal - deixando muita gente se espremendo por quase meia hora até o sinal verde. Passado o sufoco, uma constatação nada animadora : a provação estava apenas começando. Ainda viriam o enxame de menininhas histéricas (que gritavam insistentemente pelo nome de PJ antes de qualquer vestígio de show) e, a maior delas, o show dos Picassos Falsos.
Ok, não é de bom grado descer o malho em shows de bandas que ainda tentam trazer algo ao combalido mercado nacional, mas assim como o Felini tocando para o público dos White Stripes na edição passada, os Picassos Falsos eram a banda errada no lugar errado. Sua mistura de "Samba, Rock e Pop" (segundo os próprios) provocou uma indigestão na platéia, pouco interessada nas (fracas) releituras de clássicos da MPB como "Iansã", de Gil e Caetano, e "Morena de Angola", de Chico Buarque, ou nas incursões eletrônico-emepebísticas de seu último disco. Nem o pseudo-hit "Carne Crua" conseguiu arrancar aplausos, deixando no ar um clima incômodo - e a sensação de que o show já durava uma eternidade. O momento de constrangimento maior foi reservado para o final da apresentação, com uma canção intitulada "Super-Carioca" - o primeiro de dois momentos naquele final de semana nos quais senti vergonha de viver na cidade de São Sebastião. Os únicos aplausos calorosos que a banda recebeu vieram com sua despedida do palco. Alívio geral na platéia.
O anúncio da entrada da "musa alternativa" (sic) deu uma amostra da impressionante torcida que PJ Harvey tem no Brasil : sob estrondosos aplausos, a cantora subiu ao palco vestindo um "modelito outdoor" de "Uh Huh Her" - e abriu os trabalhos com uma de suas músicas ("The Letter"). Logo, a postura frágil e tímida foi desaparecendo e, com o perdão do trocadilho, a pequena Polly agigantou-se, conduzindo a performance com carisma e propriedade. A euforia do público, que cantava todas as músicas a plenos pulmões (provocando uma já esperada reação de surpresa), sem dúvida ajudou na fluência do show (e no rápido "processo evolutivo" de PJ), mas sua consistência deve-se principalmente à banda de apoio, que no formato de power trio totalmente atolado no Blues (lembrando os tempos de "Dry") trouxe peso aos arranjos, fazendo com que muitas canções (principalmente as do último disco) soassem ainda melhor ao vivo. O entrosamento dos músicos, que em alguns momentos revezavam-se nos instrumentos, deixou a cantora totalmente à vontade para soltar seu vozeirão - que graças a uma péssima equalização, mal foi ouvido nas quatro primeiras músicas. Entre as prejudicadas estavam dois de seus maiores sucessos (e prediletas da casa), "Meet Ze Monsta" e "Big Exit".
Na segunda parte do show, PJ concentrou-se em seu repertório mais antigo, indo das maravilhosas "Victory" e "Dress" (do disco de estréia, fazendo a alegria dos fãs de longa data) até a trinca Blueseira com "Me Jane", "50 ft Queenie" (ambas de "Rid Of Me") e o lado B "Harder" (um dos melhores momentos do show), passando ainda por hits como "Shame", "Good Fortune" e "Down By The Water" (onde, chacoalhando maracas, foi acompanhada pelo público no refrão final). Só faltou mesmo "Sheela Na Gig". E pra quem falava sobre uma suposta antipatia, PJ surpreendeu : "Nunca vi tantas caras felizes na minha vida", dizia. Nem precisava - bastou uma pequena dose de tímidos sorrisos para o mais turrão dos espectadores ser conquistado. No final, menininhas histéricas choravam, marmanjos babavam e todos chegavam a uma mesma conclusão : dificilmente o show seria superado.
O que ninguém poderia esperar era que a banda seguinte, incógnita para boa parte dos presentes, apresentaria uma performance tão esmagadora. Esqueça o show dos Rolling Stones no Maracanã, o Sonic Youth no Free Jazz e até mesmo a passagem de Neil Young no Rock In Rio : o Primal Scream produziu uma ensurdecedora massa sonora jamais vista em território nacional. "Catarse coletiva", "rolo compressor" e milhões de expressões batidas não seriam suficientes para descrever o que sucedeu naquele palco. Hoje, mais de um mês após a apresentação, os sentimentos despertados continuam totalmente vívidos e indescritíveis.
A troca de energia entre público e banda durante todo o show foi tamanha que despertou uma sensação só experimentada em estádios de futebol e cultos ecumênicos. Centro das atenções do evento, o "pastor" Bobby Gillespie subiu ao palco completamente alucinado, dando a impressão de que não teria forças para continuar. A crescente empolgação do público serviu como combustível para Gillespie e cia, que se inflamava e respondia com performances viscerais, criando uma relação de entrega que caracteriza os shows do tipo "inesquecíveis". Adaptando trejeitos de alguns dos maiores frontmans da música Pop, Bobby brincava com o pedestal de seu microfone, subia nas caixas de retorno, ajoelhava e cantava acompanhado de uma banda que, aproveitando o mote religioso, evocava os espíritos daquelas que extrapolavam o limite dos decibéis : Hendrix, Who, Stooges, Clash, Gang Of Four e vá lá, Jesus And Mary Chain e My Bloody Valentine, estavam todos ali, contribuindo com a criação de uma tensão sonora capaz de alimentar uma cidade. E o melhor de tudo, a esporreira era perfeitamente identificável : mesmo nos momentos em que as três (!) guitarras faziam uma mesma linha, as palhetadas de cada uma podiam ser ouvidas nitidamente, junto a baixo, bateria, teclados e milhares de samples disparados durante as músicas. Curioso notar que alguns gatos pingados reclamaram de um "embolo na sonorização" - o que nos leva à teoria da subjetividade na interpretação de um show. Ao contrário de um disco, onde performance e sonoridade podem ser avaliadas inúmeras vezes, um show é a assimilação de um momento único, influenciada por inúmeros fatores, desde técnicos (posição em relação ao sistema de som) até emocionais. Nesse caso, pelo menos para este que vos escreve, o Primal Scream era a banda certa no lugar certo.
Emparelhados como um pelotão de fuzilamento (com cinco músicos em linha, diferindo do posicionamento padrão das bandas de Rock), os caras abriram o show com uma música inédita ("Alright"), seguindo a linha totalmente Punk de sua sucessora, "Accelerator"
- que ao vivo, como sugere seu nome, é apresentada em velocidade frenética. Enquanto o "diplomata" Mani fazia contato com o público e produzia linhas de baixo pesadas e cheias de groove, Andrew Innes comandava as paredes de guitarras (auxiliado por Kevin Shields e Throbert Young) que recheavam todas as músicas, transformando até as canções mais dançantes em verdadeiras pedradas - "Miss Lucifer", por exemplo, ganhou contornos quase industriais, com um arranjo próximo ao de "Detroit", também executada. O setlist totalmente "arranca toco" não comportava canções mais lentas como "Higher Than The Sun", "Star" e "Come Together", mas não deixou de mostrar a principal característica da banda : o trânsito livre entre gêneros e o total desprendimento a rótulos, trazendo em meio às distorções ecos de Dub, Punk, Soul, Rock, Eletrônica, Psicodelia e Funk.
Depois de mais de uma hora e meia de descarrego elétrico, "Moving On Up" veio como uma lavagem de alma - e enquanto todos com as mãos para o alto cantavam "I'm moving on up now/gettin' out of the darkness/my life shines on/my life shines on", Deus esteve ali, seja lá em qual forma, abençoando aqueles "fiéis".
Quando as luzes enfim foram acesas, Bobby Gillespie resolveu dar mais uma chegada no palco, ainda incrédulo ante o estado de êxtase do público - que obviamente, urrou ao perceber sua presença. Aí não teve jeito : a banda, atendendo a pedidos, voltou na marra para o número final, uma versão totalmente ensandecida de "Kick Out The Jams", para uma platéia completamente fora de si. Na saída, a mistura de desorientação e felicidade era visível no rosto de cada um dos presentes, que se abraçavam, sorriam e comemoravam a realização desse momento mágico. O melhor show do Festival. Amém.