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11.1.05


2004 : Leitura Dinâmica

Segundo um dito popular, os anos bissextos refletem períodos de dificuldade. Folclore ou não, o fato é que 2004 deixou marcas um tanto desagradáveis, entre elas a insistência numa guerra desnecessária (não que alguma não o seja), o declínio da economia mundial, a crescente crise diplomática internacional, a tirania garantindo mais quatro anos de trono. Pra provar que foi do mal, 2004 reservou para o apagar de suas luzes uma cartada derradeira : quando as retrospectivas já preparavam suas pautas e tudo parecia encerrado, uma catástrofe de proporções inimagináveis deixou um sem número de mortos e acabou ofuscando todas as desgraças ocorridas nos últimos meses. Oxalá que 2005 reserve momentos melhores - toc, toc, toc, bate na madeira três vezes.
A música, por sua vez, sempre brilhou nos momentos de dificuldade, seja por representar uma válvula de escape ou por incorporar, enquanto forma de arte mais acessível, o descontentamento e o anseio por mudanças de uma geração. Nesse aspecto, 2004 também seguiu a escrita : os últimos doze meses foram de suma importância para a história da música recente. Pode-se dizer, sem nenhum otimismo exagerado, que os caminhos (em todos os aspectos) que a música tomará nos próximos anos foram finalmente delineados.
Um bom período para a música começa, claro, com fartura e qualidade nos lançamentos : a produção musical de 2004, além de ter sido a mais intensa da década até então, prezou pelo compromisso com o novo e, mais importante, com a diversidade. Do Rock a Eletrônica, da World Music ao Jazz, grande parte das bandas e artistas viu seu trabalho conquistar terrenos até então inexplorados. Em outras palavras, a classificação em estilos e a idéia de "público alvo" dissolvem-se cada vez mais, dando espaço a uma grande e abrangente massa. Usando um mote do querido XTC, "This Is Pop".
O crescente interesse do público seria, então, causa e consequência desse padrão de qualidade (e quantidade) - e o estímulo a essa relação de reciprocidade veio principalmente dos downloads de mp3. A fartura na distribuição de músicas e a velocidade cada vez maior das conexões deixam o ouvinte a um clique da obra de qualquer artista - e no caso de reprovação, deixam a obra a um clique da lixeira. Essa banalização da informação (gostou, salva, não gostou, joga fora), porém, acaba com a incômoda inclinação a gostar de um disco (que, admita, normalmente acontece quando algum dinheiro é investido), formando assim uma geração mais exigente e, porque não, aberta ao novo - afinal, tudo (novidades, gêneros) está ao alcance de um clique. E o melhor, gratuito.
A indústria fonográfica, por outro lado, via nos downloads gratuitos sua sentença de morte, usando a troca de mp3 pela rede como justificativa para a constante queda nas vendas nos últimos anos - situação semelhante àquela ocorrida no início da década de 80, com a popularização da fita cassete. Ora, se a cópia gratuita de música não provocou a falência da indústria naquela época, não seria hoje que isto ocorreria : a queda nas vendas nada mais é do que o reflexo de uma economia global prejudicada, além, claro, da dificuldade de adaptação das gravadoras à nova realidade. E foi em 2004 que, por meio de dois principais acontecimentos, tivemos o mais importante passo da música nos últimos anos : o início da desmarginalização dos downloads de mp3. O primeiro deles foi o lançamento e consequente popularização do iPod. O aparelhinho da Apple, sucesso absoluto nos EUA e Europa, foi a prova de que muita gente está sim disposta a pagar pela música que baixa na net, independente dos programas gratuitos. Mais ainda, o sucesso do formato pode ser prognóstico para uma breve explosão no mercado, assim como ocorreu na mudança dos discos de 78 rotações para os LP's de 45, dos LP's aos cassetes, dos cassetes aos Cds. 2005 promete.
O segundo acontecimento vital para esse processo foi o anúncio da BPI (British Phonographic Industry) de que 2004 foi o ano de maior vendagem de discos na história da Inglaterra. Nunca se consumiu tanta música na ilha como hoje, mas uma rápida olhada nas paradas é suficiente para notarmos que os números dos mais vendidos é mais baixo do que os do ano passado. Essa regurgitação no mercado, com as outrora unanimidades apresentando uma queda e artistas independentes em plena ascensão, é resultado direto das milhares de possibilidades que a internet oferece - e como os números mostram, no final todos saem ganhando. Coube ao mercado Britânico, notadamente o mais avançado do planeta, mostrar às gravadoras que o caminho das pedras é abocanhar os selos menores, de onde boa parte das novas promessas estão saindo. Claro, o pioneirismo do Reino Unido também deve-se ao tamanho do país, onde qualquer mudança é sentida mais rapidamente. Países maiores como os EUA devem reverter o placar assim que o mercado absorver as mudanças necessárias. Até mesmo a indústria fonográfica Brasileira, que apresenta sérios problemas estruturais, começa a dar sinais de renovação, com a estabilização de uma gravadora independente (Trama), e o crescimento de outras, como a brava Deck Discos (responsável por boa parte dos lançamentos nacionais de qualidade em 2004) e a popularização de formas alternativas de distribuição, como a revista Outra Coisa, editada por Lobão.
Outro sinal de avanço do mercado nacional é a intensificação de festivais, cada vez mais abrangentes e apresentando rotas alternativas ao eixo Rio-São Paulo. Dois exemplos claros são o MADA (em Natal) e o Curitiba Pop Festival, que esse ano trouxeram respectivamente The Walkmen, Teenage Fanclub e Pixies. Outras presenças marcantes em território nacional foram as de Primal Scream, Kraftwerk, PJ Harvey, Brian Wilson, 2 Many Dj's, Chemical Brothers, Liars, LCD Soundsystem, Kid Koala, Laurent Garnier, Fatboy Slim...Artistas que, mesmo não pertencendo ao mainstream, prezam pela qualidade.
Mais importante, mesmo sem o devido marketing essas bandas atraíram um público sempre satisfatório, o que abre um gancho para mais uma resolução sobre o ano : nunca o experimental e o popularesco estiveram tão próximos como em 2004. Enquanto artistas de obra mais, digamos, "obtusa" conseguem uma penetração cada vez maior graças a facilidade na distribuição, outros de apelo mais Pop caem nas graças de críticos e consumidores mais exigentes - ilustrando assim a democratização do mercado, motivada pelo tal "padrão de qualidade" citado anteriormente.
Apesar do balanço positivo, nem tudo foram flores para a música em 2004. O Soul perdeu uma de suas maiores vozes (Ray Charles), a Jamaica perdeu um de seus maiores produtores (Clement "Sir" Coxsone Dodd), o Rock, completando 50 anos, perdeu um de seus maiores baixistas (John Entwistle), os Ramones perderam o terceiro de seus quatro membros fundadores, a crítica perdeu um de seus maiores nomes (Dave Godin) e a música perdeu seu maior divulgador (John Peel). Cada um, à sua maneira, influenciou diretamente no curso que a música tomou nas últimas décadas. Fica aqui registrada a homenagem a estes e todos os outros que partiram no último ano.
Pra não terminar em tom fúnebre, fecho o texto usando um ditado tão popular quanto o da primeira linha : "o show não pode parar". E assim, 2004 foi iluminado pelo brilho de nomes como... Melhor não dar nome aos bois pra não estragar a surpresa. Que venham as listas.

:: Leandro :: 12:55 AM ::



 
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